Consumismo infantil, assunto de gente grande

Henrique França
@RiqueFranca

 

Na tarde do próximo dia 6 de outubro, representantes das empresas Mattel, McDonald’s, Playstation, Sony e Nestlé, no Brasil, estarão reunidos para discutir sobre crianças. Porém, essas gigantes de produtos ligados aos pequenos não vão simplesmente conversar sobre novas formas de diversão, educação, formação ou limites éticos diante de meninos e meninas brasileiros. Todos vão levar em suas pastas estratégias para imprimir suas marcas na mente dos pequenos consumidores brasileiros.

O cenário desse debate é o MaxiMidia, um dos principais eventos de publicidade do País, realizado em São Paulo. E a chamada-convite para a discussão já revela cuidados: “Venha ao MaxiMidia e aprenda a falar com quem mal aprendeu a falar”. Assim, sem meias verdades, direto. O slogan que completa o anúncio fecha a questão: “Marcas e público infantil. Conversa de gente grande”. Seria simplesmente uma peça publicitária criativa não fosse a clara organização do segmento de produtos voltados às crianças armando-se de estratégias para vender mais, convencer mais, direcionar mais o gosto pela compra, pelo consumo e pela não reflexão a esse comportamento.

Temeroso é que essa “conversa de gente grande” não inclui pais, educadores ou psicólogos infantis que possam dar direcionamentos da possibilidade de lucro empresarial e respeito à fase de formação de valores das crianças. Ao que parece, a tarde de debates com as cinco marcas dispostas anteriormente está calcada em solo e clima bélico, onde o inimigo pode ser qualquer coisa que se coloque entre as marcas e os pequenos consumidores.

Leia o que mais foi escrito no texto de chamamento a essa conversa nada inofensiva: “É a oportunidade de você e sua empresa aprenderem a falar com gente que influencia imensamente o consumo de milhões de adultos. Conheça os limites da rigorosa legislação para anunciar produtos infantis e aprenda com especialistas como ser relevante com o público infantil, inquieto, mutante e importantíssimo para tantas grandes marcas.”

Vale ressaltar a expressão “que influencia o consumo de milhões de adultos”. O mercado já descobriu que convencer crianças é muito mais eficiente do que persuadir os pais. Ou melhor: conseguindo o primeiro, tem-se o seguido como conseqüência direta da insistência infantil. O problema é que, diferente dos adultos – nem todos, claro -, as crianças tomam certas campanhas publicitárias como verdadeiras, muitas vezes não distinguem fantasia e realidade e trazem para si ideais de alegria, satisfação e realização baseadas no ter, no possuir.

Caso que merece ser lembrado é a decisão sobre a séria de comerciais de produtos da apresentadora Xuxa Meneguel pela marca Candide. Em 2008, uma decisão do Conselho Nacional de Auto-Regulamentação Publicitária (Conar) suspendeu oito filmes publicitários de binquedos eletrônicos da chamada “rainha dos baixinhos”. A ação havia sido impetrada pelo Projeto Criança e Consumi, do Instituto Alana.

Entre outros argumentos, pesou o parecer psicológico da especialista Maria Helena Masquetti sobre os comerciais em questão. O documento, que integrou o processo, apontava que “por não terem a consciência crítica desenvolvida, as crianças não têm condições de compreender os ‘jogos de interesse’ embutidos nos comerciais. Por isso, tornam-se presas fáceis deste tipo de comunicação onde a empresa em questão sabe o que quer das crianças ao passo que essas não sabem que estão sendo manipuladas.” Diz ainda, a psicóloga: “Argumentar que as crianças de hoje são espertas para entender isso é admitir que a infância está sendo aviltada em favor da formação precoce delas enquanto consumidas.”

Se você é pai e se assustou com a dimensão que o assunto tomou, torne essa sensação em atitude, a começar por dar exemplo de valorizar o ser alguém em detrimento ao ter, ao possuir algo. Se você ainda não se convenceu, vale pesquisar, ler, assistir (sugestão: assista aos documentários “Criança, a alma do negócio” e “Crianças do Consumo”) e refletir sobre o assunto. Há uma equipe de profissionais da comunicação persuasiva se preparando invadir os veículos de comunicação de massa com estratégias de convencimento aos pequenos alvos do consumo. Algo precisa ser feito por quem cuida por um futuro menos calcado na posse. E essa, também, é uma conversa de gente grande.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 29 de setembro de 2011]

 

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2 responses to this post.

  1. É graças a essa cultura do consumismo que hoje nossa sociedade considera mais importante o “ter” que o “ser”. Lamentável que as crianças sejam cada dia mais expostas a isso. cabe aos pais tentar educá-las e mostrar que a vida e a felicidade não podem ser resumidas em comprar. Só me pergunto como, já que grande parte de nossa sociedade está cega diante do consumo desenfreado.

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  2. Posted by Gustavo on 29 de setembro de 2011 at 8:18 pm

    Os pais devem ser responsáveis por seus filhos. E devem aproveitar cada oportunidade para conversar com eles inclusive sobre consumo. A realidade é outra, hoje, e as indústrias buscam as crianças não apenas enquanto crianças, mas para te-las como clientes fieis até o resto de suas vidas. O buraco é ainda mais embaixo.

    Responder

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