Rock, Sarney e uma mini-legião de puxa-sacos

Henrique França
@RiqueFranca

 

Pelas barbas de Renato Russo. E não é que 33 anos depois de composta, a canção “Que País é Esse?” continua tão vergonhosamente atual quanto reveladora? A última “atualização” aconteceu no último sábado 24 de setembro, quando Dinho Ouro Preto, vocalista da banda Capital Inicial, resolveu dedicar a canção “às grandes oligarquias que parecem ainda governar o Brasil, deixar os grandes jornais censurados”. E emendou: “essa aqui é para o Congresso brasileiro, em especial para o José Sarney.” O palco do desabafo? Segunda noite do festival Rock In Rio, diante de um público estimado em 100 mil pessoas. Além de muito aplaudido, Dinho e sua dedicatória ganharam reforço da platéia, que durante um trecho instrumental aproveitou para gritar “Ei, Sarney, vai tomar no c…”.

O que seria uma rebeldia típica de jovens, roqueiros ou não, diante de uma canção de protesto e indignação, tornou-se em episódio revelador da fidelidade respeitosa-ideológica-duvidosa do deputado estadual Magno Bacelar  para com seu idolatrado – salve-salve –  presidente do Senado. Durante discurso na Assembleia Legislativa do Maranhão (claro!), o parlamentar vociferou que “muitos dos metaleiros” presentes ao show do Capital Inicial e que xingaram Sarney são ‘drogados e maconhados” – dito assim, “maconhados” mesmo. Mais ainda: o deputado do Partido Verde maranhense disse que vai propor uma moção de repúdio à banda e ao vocalista Dinho Ouro Preto.

Seria simplesmente risível não fosse tão vergonhosa a situação de perceber que pessoas eleitas pelo povo para representar o povo se passem a uma postura tão subserviente e tacanha. E que não haverá moção de repúdio parlamentar mais clara, em alto e bom som, do que a feita na arena do rock, para José Sarney. Ao que parece, o senhor deputado Magno Bacelar, que “coincidentemente” é vice-líder do governo de Roseana Sarney, não percebeu que os palavrões destinados ao presidente do Senado sequer chegam aos pés do enlameado reinante nos showzinhos do Congresso Nacional.

Refrescando a memória do parlamentar maranhense e amigo da filha do ‘rei’, a família Sarney volta aos noticiários não apenas no Rock In Rio. Há pouco mais de uma semana, o filho de José, Fernando Sarney, foi beneficiado por uma decisão judicial após ter seu nome envolvido em esquema de tráfico de influência, formação de quadrilha, desvio e lavagem de dinheiro. A decisão do STF que liberou Fernando, anulando provas de investigação da Polícia Federal durante a Operação Boi Barrica, de longe lembra o rock’n roll do maior festival do Brasil, mas tem um tom de Valsa do Imperador Tupiniquim.

Lá do palco, no Rock In Rio, Dinho Ouro Preto arrematou: “a regra básica é: ‘nunca confie num governo. São todos iguais.” É isso. Em Brasília, no Maranhão, em 1978, em 2011, tudo parece como dantes no País dos Sarney. Mas o ‘depupilo’ Bacelar dificilmente irá se convencer que levantou uma bandeira vergonhosa. Ele é o mesmo personagem da política brasileira que levantou-se, há alguns dias, para defender Sarney no caso em que o presidente do Senado usou um helicóptero da Polícia do Maranhão para passear em sua ilha particular. Algo como usar a ambulância de um hospital para levar a família à praia. E vale lembrar que Sarney, agora, é senador pelo Amapá.

Pois bem. Sobre o episódio da carona aérea o deputado maranhense Magno Bacelar questionou, na cara dura: “Queria que o presidente [Sarney] fosse andar de jumento? Enfrentar um engarrafamento [?]”. Coitadinho, não? Certamente de jumento Sarney não andaria, porque teria quem o carregasse nos braços. Imerecida de mais comentários tal atitude. Talvez o ideal fosse uma canção dedicada ao defensor do senador xingado. Se alguém acha que 100 mil “metaleiros drogados e maconhados (sic)” do Rock In Rio desrespeitaram um homem só, talvez precise entender que uma nação de 190 milhões de brasileiro já não agüenta agir como entorpecida pela corrupção e malandragem que assola o País. Ao que parece, essa multidão anda se tratando na clínica de reabilitação da cidadania. Em algum momento, as pedras vão rolar.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 30 de setembro de 2011]

 

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4 responses to this post.

  1. Posted by Gustavo on 30 de setembro de 2011 at 2:49 pm

    O que devasta ainda mais a política brasileira é a eternidade desses caciques. Mesmo depois de mortos, ainda vivem seus filhos, netos e apadrinhados mamando nas tetas do governo. O Brasil deve urgentemente criar uma lei que impeça isso, seja aposentando políticos por idade – para servidor público, 70 anos é compulsória, pq Sarney com 80 não é obrigado a se aposentar se no fim das contas é um servidor público? – seja por cargo – depois de Presidente não pode mais exercer cargos políticos, etc. Enfim, formas de solucionar existem. O que falta mesmo é vontade.

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  2. Posted by Marcos Nicolau on 1 de outubro de 2011 at 11:09 am

    Existem duas maneiras de uma sociedade lidar com essa situação vergonhosa de políticos que dilapidam os bens públicos: mobilização com passeatas e protestos (o que é ainda muito insipiente no Brasil) e criação de leis que regulamentem e punam esse tipo de atitude (o que é difícil porque são eles mesmos quem “fabricam” as leis desse país). Nos resta a esperança de um despertar da consciência cívica de, pelo voto, provocar a mudança.

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  3. Oxe, e aí no show do Detonautas (uma banda que desistiu de ser emo, virou rebelde e perdeu a gravadora) o cantor disse que preferia tocar com maconheiros do bem do que fazer conluio com político corrupto. E a galera repetiu: “Sarney, vai tomar no cu!”

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  4. Posted by Carla Quintas Vieira on 4 de outubro de 2011 at 7:27 pm

    Adorei seu post Henrique. Parabéns mais uma vez!

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