Inclusão. Estamos tão diferentes assim?

Henrique França
@RiqueFranca

Há um texto do educador e escritor José Pacheco intitulado “Diferentes” (Revista Educação, nº 173) que chama a atenção para a realidade acerca da chamada inclusão de crianças com necessidades especiais – seja um déficit de aprendizado, seja problemas de locomoção ou relacionados a questões mentais. Preocupante a constatação, mesmo que não generalizada, desse ex-diretor de escola que afirma: “em tempos de inclusão, há muita aparência e discriminação.”

De fato, apesar de dez anos do Programa Educação Inclusiva: Direito à Diversidade e da preparação de investimentos de R$ 10 bilhões até 2014, pelo Governo Federal, ainda falta muito para que esse direito seja alcançado – especialmente pelas crianças. O problema não está na falta de investimentos, ausência de diretrizes ou até pouca informação sobre o assunto. A questão é mais grave, porque perpassa pela formação. Pior: formação de professores, educadores, gestores de escolas e de todo um sistema educacional, público ou privado, que ainda não sabem ao certo como lidar com esses “diferentes”.

A educadora Maria Teresa Eglér Mantoan tem uma das melhores formas de colocar a situação de inclusão de estudantes nas escolas brasileiras. Segundo ela, a “inclusão é o privilégio de conviver e compartilhar com pessoas diferentes de nós, com essas diferenças.” Sim, a situação invertida nos dá uma nova ótica. Não são as crianças antes chamadas ‘deficientes’ que são agraciadas com o acolhimento dos “normais”, mas a escola, seu corpo docente, seus alunos e pais desses alunos, em geral, os verdadeiros privilegiados com o trato, o aprendizado com uma criança diferente.

Porém, fica no ar o idealismo de Mantoan e o realismo de quem corre contra o tempo para ensinar, transmitir conteúdo, gerenciar pessoal e a pressão das novas regras. Programas de inclusão existem, mas a prática deles, sem sempre. No texto de Pacheco, o educador narra um passeio pela escola onde os “diferentes” são todos colocados em uma mesma salinha, separados dos demais alunos, e vistos assim como uma boa ação pela escola, que buscou o melhor para aquelas crianças.

A ação de gestores e educadores – sem generalizar, evidentemente – reflete a nossa visão como sociedade. O mais fraco, o mais lento, aquele que não responde de forma rápida, que não apressa o passo, não fala com desenvoltura é escanteado. O foco, aliás, não recai apenas sobre aqueles com déficits patológicos. Basta seu filho ser mais paciente, mais calmo, refletir algum tempo antes de falar que é prontamente taxado ou encarado como lento, lerdo, fora do padrão.

Acontece que o ser humano não foi feito em escala fabril, apesar de caminharmos cada vez mais para essa concepção. Crianças tornam-se adolescentes em escolas que focam em uma juventude para o mercado, para a “vitória” mercantil, mormente para uma prova, um exame, um processo seletivo. E nessa seleção está subtendida uma pré-seleção daqueles que provavelmente nunca chegarão ao primeiro lugar no pódio dos melhores empregos, dos cursos superiores da elite, das pós-graduações, das celebridades em micro ou mega escala.

Mesmo assim, é preciso incluir, respeitar, receber e perceber, acima de tudo, que educação é isso. É apreender de cada um, como ele é; é encontrar meios de se aproximar, de compartilhar experiências e trocar informações, conhecimento, mesmo que essa criança, adolescente ou adulto sofro que consideramos, na nossa padronagem de sempre, um déficit. Enquanto isso não for entendido, o déficit estará na educação, no trato com quem tem direito e merece respeito como estudante, participante, cidadão.

Ainda estamos longe da inclusão plena, nas escolas brasileiras. Mas chegamos mais perto de ferramentas que apontam para esse direito. Programas, leis, qualificação. Falta-nos, ainda, aprender sobre esse sentido do privilégio nessa acolhida.

 

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 4 de outubro de 2011]

 

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