O falso humorista, o falso belo, o falso valor

Henrique França
@RiqueFranca

O comentadíssimo caso Rafinha Bastos – humorista que fez apologia ao estupro, “brincou” de dar cotovelada em uma apresentadora de TV e disse que “comeria” uma mulher grávida e o bebê que ela carrega no ventre – traz consigo uma reflexão além da “punição” ao rapaz pela emissora de TV que o contratou. Bastos ficou fora da bancada do programa que apresenta junto a outros dois humoristas, na última segunda-feira, e mais uma vez fez disso chacota envolvendo mulheres! Paralelamente à atração em rede nacional, sem a presença do rapaz, Rafinha postou fotos suas na internet rodeado por modelos de lingerie, acrescida da frase: “que noite triste”. Engraçado?

É claro que há muito de tristeza na postura do humorista, apesar da tentativa incessante de gracejar com a situação. É triste, na verdade, perceber que alguém capaz de formular tiradas engraçadas de qualquer assunto faz clara opção pelo escárnio que desmerece o outro, que desvaloriza um gênero, que humilha quem sequer lhe fez mal. Que prazer há nisso? Estamos adotando a velha piada dos filmes adolescentes norteamericanos em que cada tombo, cada pessoa não malandra merece a risadagem de uma pequena multidão escondida no anonimato do grupo, capitaneado geralmente por um vilão disfarçado de popular? Seria Bastos esse vilão, bonitão, incitando uma multidão em audiência que riem quando alguém diz “foi estuprada? Ta reclamando de que? O cara te fez um favor”. Engraçado?

Mas Rafinha Bastos sequer é vilão. Ele tenta ser, faz do politicamente incorreto seu personagem. Mas erra na mão. Para alguém que apresenta um programa onde parlamentares são postos à prova diante de suas próprias falcatruas e falhas, como homens públicos; onde gestores são cobrados – pelo próprio Rafinha, não raro – a respeitar a população de uma cidade, um bairro, uma escola, o humorista está muito longe do mínimo de credibilidade que a situação deveria lhe oferecer. Com suas piadas preconceituosas, machistas e indigestas, Bastos está para o humor brasileiro como um político chafurdando na lama da corrupção ao discursar feito um moralista na bancada do Congresso. E isso, definitivamente, não é engraçado.

No cerne das piadas antimulheres de Rafinha está uma pseudo-beleza. No estupro: “toda mulher que é estuprada é feia”; na cotovelada: “arruma esse nariz, sua cadela”; na cópula com uma mulher grávida, que não a sua: “em comeria ela e o bebê”; na resposta à suspensão pela emissora de TV: as mulheres seminuas ao seu redor são meros objetos do desejo masculino, servindo o humorista na banheira, fazendo massagem em Bastos. O belo que chega às idéias de Rafinha sai de sua boca em forma distorcida, desfigurada e feia.

O mais surpreendente nesse episódio é o número de mulheres que não apenas apóiam o humorista como tentam justificar suas palavras. “É um incompreendido”, chegam a bradar. Outras tentam justificar um erro com outro: “tudo bem que Rafinha pegou pesado, mas tira-lo do programa? Por que não fazem o mesmo com pessoas que fizeram piadinhas tão agressivas quanto as dele?”. São meninas bonitas esteticamente, feias em personalidade e que não conhecem o sentido da palavra valorização. É nesse solo que Rafinha finca suas raízes de agressividade disfarçadas em transgressão. Mulheres e muitos homens dispostos a negar conceitos, valores e até mesmo horrores para estar “perto”, conivente, defendendo uma espécie de ícone da juventude que “diz o que pensa”, mesmo que sem qualquer reflexão.

Se a boca fala aquilo que o coração está cheio, Rafinha Bastos não passa de um machista posando de intelectual, vazio de ideais, fraco de piadas, confuso entre a estética da beleza e o belo que vai além das meninas seminuas e sua barba bem tratada, vendendo valores a um preço muito alto. Mas valores, de verdade, não têm preço.

Novidades da #CotidianaMente

Desde o último mês de fevereiro a #CotidianaMente tem ocupado a página 12 do Jornal A União, diariamente. A partir desta quarta-feira (6/10), a coluna ganha novo espaço, à página 2 d’A União, sempre às quartas-feiras e sábados. Novos projetos de seu autor exigiram um momento de desaceleração do fazer opinião diária – o que significa redobrar a responsabilidade de condensar conteúdo muito mais sensível e correto diante do leitor, nos dois encontros semanais estabelecidos a partir de hoje. #CotidianaMente, às quartas e sábados, agora na página de Opinião (2) do seu Jornal A União. No blog, os textos seguem nesses dois dias e devem ganhar, em breve, a companhia de novos conteúdos.

[Texto publicado na coluna #CotidianaMente, do Jornal A União, edição de 5 de outubro de 2011]

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4 responses to this post.

  1. Posted by Veronica Ismael on 7 de outubro de 2011 at 1:01 am

    “A nossa luta é todo dia, somos mulheres e não Mercadoria”
    Já faz tempo que os comentários do humorista, agredi-me como mulher e feminista.
    As mulheres para serem bonitas, não precisa seguir o padrão de beleza da TV.
    A luta do movimento de mulheres e feminista é pela a valorização e empoderamento das mulheres, é todo dia. Atitude do humorista do CQC também acontece diariamente na Paraíba, transformando lutas e conquistas em piadas agressivas, isso que o humorista fez e que muitos radialistas e blogueiros paraibanos fazem, também é considerado um ato de violência.
    A nossa luta continua.
    “A nossa luta é por respeito, mulher não é só bunda e peito”.
    Saudações Feminista

    Responder

  2. Posted by Gustavo on 7 de outubro de 2011 at 2:22 am

    O fato é que o CQC como um todo é mais um programa idiota feito por gente idiota para gente idiota – o pior é que todos se acham inteligentes. O pessoal perdeu a noção de que está no século XXI e está trocando os pés pelas mãos. Essa nova geração de “humoristas” stand up é uma lástima em quase todos casos.

    Responder

  3. Posted by Pianista on 10 de outubro de 2011 at 9:24 pm

    Texto muito bom!!!

    Responder

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