Caldeirão da Mazelas…

Henrique França
@RiqueFranca

O Brasil tem passado por um momento importante quanto à relação audiência e meios de comunicação de massa. Aqui, onde tudo é permitido e o povo mostra-se descontraído, flexível – diferente dos sisudos primeiro-mundistas -, a exploração dessa boa-fé chegou ao subterrâneo da ética e do respeito capitaneada por esses veículos de informação. Mas a importância do momento vem da aparente intolerância a esse escárnio midiático.

Há dias o País tem acompanhado e debatido casos em que “celebridades” da TV extrapolam limites do constrangimento para aglutinar pontos de audiência sobre o grotesco. Na Paraíba, o assunto também vem tomando proporções de destaque. Não bastasse o uso corriqueiro de cenas de pessoas baleadas, de mulheres seminuas em horário impróprio, de palavrões nos microfones das rádios e emissoras de televisão, a última rasteira no bom senso dos comunicadores paraibanos veio da exposição de um vídeo contendo imagens de uma adolescente sendo estuprada por um homem de 20 anos, funcionário da escola onde a menina estudava, na cidade de Bayeux, Região Metropolitana de João Pessoa.

Além das imagens constrangedoras do estupro – apesar do efeito do vídeo, define-se claramente detalhes da cena -, o pai da garota foi exposto em voz, imagem (sem efeitos), nome e sobrenome. Se a adolescente não foi identificada pelo vídeo exibido como um troféu “jornalístico”, certamente teve sua identidade revelada depois da exposição paterna. Essa comunicação rasteira recebeu a primeira resposta da Justiça nesta sexta-feira, quando o Ministério Público Federal na Paraíba (MPF) entrou com ação pedindo suspensão de um programa, cassação de concessão de uma emissora de TV e pagamento de indenização de R$ 500 mil à adolescente e R$ 5 milhões à empresa de comunicação por danos morais à coletividade.

É um primeiro passo, certeiro, de uma longa caminhada. Outros canais de TV e portais de notícias na web, de grupos midiáticos diferentes, expuseram a adolescente do mesmo modo, exploraram o vídeo, identificaram o pai da menina. Todas passíveis, sem dúvida, de punição. Mas usar isso para acobertar quem primeiro está sendo punido pelo MPF é uma atitude vil. Justificar um erro com outro é como alegar que um assassino condenado não pode ir para a cadeia porque há outros tantos que também mataram e não foram julgados ainda. Certamente, a tomar pela atitude do Ministério Público Federal, outras ações devem ser impetradas no Estado.

As ações, diferente do que alguns alegam, não se enquadram em uma espécie de caça às bruxas. A questão é evitar que esse caldeirão de mazelas cozido diariamente diante da audiência entorne e promova sua sujeira, invada com seu odor, embrulhe ainda mais o estômago de quem os recebe em sua casa, em seu estabelecimento. Vale ressaltar as palavras do procurador Duciran Farena, responsável pela ação, de que “uma concessão pública foi utilizada como instrumento da violação de direitos fundamentais da pessoa humana, e exatamente do segmento mais fragilizado da sociedade – as crianças e adolescentes.”

Sim, canais de rádio e TV são instrumentos concedidos pelo Governo, não são comprados ou pertencem a empresário de comunicação algum. Pertence ao público, e esse público merece respeito. A ação pública do MPF, a indignação popular, o constrangimento de família, a humilhação de uma adolescente e seus pais voltam-se todas ao mesmo objetivo: respeito. Isso vai muito além de multas e suspensão de programação. A punição se coloca como imperativo para quem desrespeita limites, brinca com o sentimento alheio, achincalha a Justiça, humilha a famílias, expõe crianças.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 8 de outubro de 2011]

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