Semeando o verbo ensinar…

Henrique França
@RiqueFranca

“Professorar” deveria ser um daqueles verbos imperativos, dos que carregam valor. E dele só poderiam se apoderar pessoas juramentadas de compromisso com o outro, com o coletivo e o futuro. Dirigir-se a um professor deveria ser sinal de amizade, proximidade, busca por algo que, em parceria, pudesse ser apreendido, construído. Mas, qual? De tempos em tempos, o que se percebe é que o professor tem sido apontado como uma subcamada de profissionais – principalmente no que tange à valorização salarial – e uma espécie de ‘mal necessário’ para um bom número de alunos direcionados, desde a mais tenra idade em salas de aula, em tirar boas notas nas provas, passar por média no ano, passar no vestibular e conquistar a estabilidade financeira conquistando uma vaga em concurso (público, de preferência).

Nada contra os concurseiros de plantão ou a turma do ‘quero um dez’, mas conseguir notas boas sem senso crítico é como um modelo de passarela que encara a encenação um monólogo no palco: bonitinho, mas ordinário. Pior: o sistema do ‘aprovar’ a qualquer custo tem repercutido diretamente na qualidade dos profissionais que saem das universidades, dos adolescentes que entram no Ensino Médio e das crianças que dominam mais a linguagem da TV do que dos livros. O que isso tem a ver com professores e esse dia 15, dito ‘dedicado’ a eles? Tudo!

Nas etimologias dos termos professor, mestre e educador há pelo menos um enfoque em comum: o esforço voltado ao outro. Mestre, do latim magister, é “o que dirige, guia, conduz, ensina”; professor, também do latim professor, traz sentido daquele “que se dedica a, o que cultiva”; finalmente, educador, de educator, vem de “o que cria, nutre”. Enfim, aquele que se apodera do encargo de conduzir uma sala de aula, de ouvir, partilhar conhecimento, de (re)forçar reflexão, de motivar futuros profissionais, acadêmicos, cidadãos é, acima de tudo, um semeador.

Nessa semeadura, porém, o solo tem se tornado cada vez mais árido. A esquálida remuneração salarial que resseca o chão precisa ser irrigada com motivação; o pouco interesse dos que buscam apenas resultados numéricos, literalmente ‘notáveis’, precisa ser adubado com perspectiva de um futuro melhor; o presente de chão batido e empoeirado das políticas públicas e valorização docente que parece indicar desertificação do solo-mestre precisa ser arado com a esperança de dias melhores.

Professores deveríamos ser todos nós, se nos dignássemos a nutrir, conduzir, ensinar, cultivar o que se deve colher adiante. Nem todos o querem. Alguns, porém, tomam para si os livros-enxadas, os lápis-sementes e saem por aí fazendo desse campo seu ganha-pão. E que pão suado. Há alguns anos a Unesco classificou o nível salarial do professor brasileiro como o terceiro pior do mundo, perdendo apenas para o Peru e a Indonésia. Até hoje, professores lutam por um piso salarial minimamente digno, saindo das salas de aulas e tomando as ruas em reivindicação ao mínimo que têm direito, não raro levando porrada de policiais mandados por gestores que cinicamente declaram: “professor tem que trabalhar por amor, não por dinheiro”, como o fez o governador do Ceará, Cid Gomes, dias antes de vários mestres serem agredidos e pelo menos um docente ser levado ao hospital com traumatismo craniano depois de atingido por um policial durante protesto na Assembleia Legislativa cearense.

Há tanto a ser semeado: conhecimento, educação, tolerância, respeito, diálogo, simplicidade, valorização. Infelizmente, porém, o solo continua esturricado, de difícil semeadura. Evidentemente, há boas sementes vingando aqui e acolá: gestores aparentemente mais comprometidos, projetos e programas que buscam a dignidade docente, estudantes que se esforçam em crescer. Mas é muito pouco para a safra. Na lavoura, as exceções precisam ser ervas daninhas, nunca o bom fruto. Caso contrário, perde-se o sentido do arado em chão tão seco, apesar de potencialmente fértil, e a razão de manter a escolha do professor-semeador.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 15 de outubro de 2011]

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