Marchas, desfiles e jurados

Henrique França
@RiqueFranca

O Brasil tem se transformado no País das Marchas. Isso é bom, do ponto de vista da mobilização popular, dos passos que algumas centenas e até milhares de pessoas estão dando nas ruas, na Internet, exército de cidadãos chateados, abusados, indignados e fartos do que os motiva a sair marchando. Mas, como diziam nosso avós, tudo em excesso faz mal.

Faz mal, por exemplo, quando as marchas caem nas mãos de aproveitadores que as transformam em simples movimento anti-fulano, Alguns desses fulanos, é verdade, precisam ser extirpados dos cenários político, econômico, social e cultural brasileiros. Fato. Porém, derrubar o rei, nesse caso, não garante um reino mais justo. Então, gastar energia de muita gente nas ruas pedindo apenas punição para unzinho, no meio de uma laia de hipócritas, é temeroso.

Também faz mal quando as marchas se transformam em desfiles. Tem gente saindo de casa tão maquiado que a coisa fica meio “Indignados Fashion Week”. E não se trata de maquiagem da pele, especificamente, mas de pó e brilho na intenção, na motivação. É que, com tanta maquilagem, qualquer tempo ruim, chuvinha, faz com que os marchadores abandonem a passarela – ou melhor, a causa. Ou seja, tem muita gente gritando “fora” sem saber ao menos o porquê do imperativo. A motivação está muito mais na multidão do que na reflexão.

E por falar em desfile, depois da Marcha da Maconha, do Orgulho Gay, dos Evangélicos, Contra a Corrupção, a novidade é a Marcha das Noivas. Isso mesmo. No próximo sábado, em São Paulo, cerca de 150 noivas vestidas de véu e grinalda sairão em cortejo… todas de limusines! Mais, ainda: cada noiva-modelo terá que desembolsar R$ 120 para participar do evento. E nem precisa dizer que essa confusão entre uma mobilização de reivindicação e um desfile de luxo faz muito mal a esse momento de estalo na inércia social brasileira.

Então, há uma mistura clara aqui entre o que é marcha – do ponto de vista reivindicatória, de busca por melhorias, uma forma de mobilização popular – e o que é desfile, como os vários movimentos muito mais maquiagens do que caras-pintadas, muito mais limusines do que pés nos chãos. São movimentos válidos, mas cada um com suas intenções e propostas. Que não se misturem sequer em nomenclaturas – a não ser que exista uma clara intenção de ofuscar ou confundir uma ou outra.

Porém, pior do que os que marcham de forma equivocada ou vazia e os que desfilam máscaras ou sobre limusines são os que se colocam como uma casta superior: a dos jurados. Esses, do alto de seus sofás ou das banquetas dos botequins, apontam para os jornais, para as telas da TV, achincalhando o “povo” nas ruas. Coisa de gente besta, talvez, ou de “idiotas” que acreditam na mudança do Brasil. Sim, não são poucos os que xingam quem decide sair da paralisia midiática e levar sua voz às ruas. Essa é, sem dúvida, a pior das categorias no cenário atual tupiniquim.

Os jurados também costumam empunhar seus controles-remotos-espadas mirando o povão, o assalariado, quem “não tem o que fazer”, e considera suas críticas filosóficas e baseadas na leitura diária de meia dúzia de jornais do mainstream midiático corretíssimas e acima de quaisquer críticas. Mal, muito mal vestir a fantasia do jurado. Do alto do palanque, é fácil ter uma visão geral da situação, dar pontuações, apontar o “certo” e o “errado” no que ainda se coloca como um aprendizado em sociedade. Difícil, mesmo, é descer do palco da comodidade e descer a avenida para ouvir os reais motivos da mobilização, sentir o cansaço no corpo depois da marcha, ver acesa a esperança de dias melhores e participar disso. Jurados, “superiores”, são privados dessa descoberta.

Jurados não percebem que criticando gratuitamente quem se digna e botar os pés no asfalto estão compactuando um sistema carente de mudanças. Muito mal. Mas, estamos em processo: aos marchadores, mais reflexão antes dos gritos; aos modelos e seus desfiles, menos confusão entre uma ação narcisista e uma intenção cidadã; aos jurados, princípio básico: fomos feitos com duas orelhas e uma boca… ouvir mais e falar menos, sempre.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 19 de outubro de 2011]

 

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4 responses to this post.

  1. Muito sensatas as ponderações. Há, d fato, um exagero visível nas citadas exposições. Abraço!

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  2. Quando cheguei na concentração da marcha contra a corrupção aqui em João Pessoa fiquei um tempo analisando e me perguntando que sentido fazia aqui. Puxada majoritariamente por uma entidade um tanto quanto elitista, que é a OAB, senti em algumas faixas e cartazes uma micro revolta de quem tem dinheiro e não quer ser mais roubado. Mas depois Escurinho chegou lá, fez uma fala e parece que jogou luz sobre aquilo tudo, e eu consegui aceitar que ali poderíamos estar dando um grande passo para saír da lerdeza: levantar a bunda do sofá.

    Responder

  3. Posted by sandra on 16 de novembro de 2011 at 5:21 pm

    Escreva + sobre o tema no geral

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