Debate, embate e alienação

Henrique França
@RiqueFranca

Sim, o assunto é polêmico, delicado e merece ser posto à prova. Mas o tema “Jornalismo Sensacionalista”, servido como debate a centenas de estudantes, professores e profissionais da imprensa, reunidos no auditório da UFPB, esta semana, acabou sendo ofuscado pela intolerância e a confusão. Muita gritaria, muita encenação – no palco e na platéia -, pouca reflexão. E antes que a grita dos rebeldes se estabeleça, fica o convite: leia até o fim.

Não raro debates são confundidos com embates. No primeiro, apesar da não discordância das idéias, existe um confronto ético, onde os lados envolvidos na pendenga merecem e precisam falar e ser ouvidos. Exige preparo, atenção, disposição e educação. Já no embate, passa longe o estabelecimento ético do “dar voz” ao outro. A idéia é achincalhar, confrontar, até mesmo humilhar, em nome da razão de um dos interlocutores.

Debate não é embate. Se assim for, perde o sentido. Evidentemente, toda manifestação artística e ideológica é válida. Quando essa ação abafa a voz do outro, ela perde a validade, azeda. Claro que é impossível pactuar com a postura de alguns profissionais da imprensa paraibana participantes do debate. E, evidentemente, existe intenção de combate, de convencimento, de persuasão em todo e qualquer debatedor. Mas a idéia é trazer luz à sua mensagem e não apagar o candeeiro alheio. Porque aí teríamos disputa, pura e simples. Disputa que se assemelha ao jogo de poder que leva empresários de veículos de comunicação de massa a apostar tudo e todos pela audiência. Essas pessoas não debatem, elas miram o embate.

Muito se falou a respeito do assunto. Muito se apontou o dedo. “Ideologia”, dizem muitos. É fato. Mas a ideologia aliena, já apontava Karl Marx. Porém, deixemos os aprofundamentos sociológicos de lado. Afinal, não é de hoje que assistimos extremos fáceis de entender e difíceis de explicar: é muito Marx para pouca marcha; muita (vã) filosofia para pouca neguentropia midiática; muito grito, muito apito e poucos ouvidos atentos. Sem eles, os ouvidos, nos proporcionando atenção – mesmo diante do mais deplorável – não fomentaremos reflexão. E sem reflexão, as ações são vazias e os resultados, quando existem, paliativos.

Richard Saul Wurman, o homem que cunhou o termo Arquitetura da Informação, lista em seu livro “Ansiedade de Informação” algumas dicas para um bom ouvinte e que podem servir para novas experiências como a desta semana: ‘não tente formular uma resposta ou réplica enquanto a outra pessoa está falando’, ‘quem começa uma frase deve ser quem a encerra’, ‘não deixe que o medo do silêncio o leve a preenchê-lo com palavras vazias’ e ‘lembre-se de que escutar não é um estado passivo, mas uma atividade que requer grande energia. Procure escutar com a mesma intensidade que usa para falar’.

Debates são extremamente salutares, democráticos e geram crescimento. Embates são tiranos, violentos e geram angústia e opressão naquele que é calado. Ideologia é algo necessário, mas pode levar à alienação – que, nesse contexto, flerta diretamente com a falta de educação. E o “Jornalismo Sensacionalista”, o que tiramos dali? Pelos olhares, alguns saíram se achando “vencedores” da noite. Mas uma coisa é certa: poderíamos ter saído dali vitoriosos, todos. Enfim, precisamos praticar mais o debate, em sua essência. E, para isso, que outros venham.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 22 de outubro de 2011]

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4 responses to this post.

  1. Como eu te disse na resposta ao comentário no texto do Ócio Hiperativo (http://www.ociohiperativo.com.br/2011/10/pra-que-tanta-elegancia-minha-gente.html), não fui ao debate e por isso prefiro não comentar uma ou outra atitude isolada. Mas, quanto ao protesto, o vejo como algo que cumpriu seu papel. Independente de como seja feito, ele tem a função de chamar atenção e manter o debate vivo. Protestos não mudam o mundo, mas pavimentam o caminho pra isso. Se ninguém tivesse protestado ou apenas tivesse erguido um cartaz condenando o parajornalismo de Samuka, muito provavelmente, ninguém estaria mais falando do assunto hoje.

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  2. De fato, Simão, protestos não mudam o mundo – mas podem dar o pontapé inicial. O fato é que o protesto do debate virou um show a parte e o que deveria ser debatido não foi, plenamente. Particularmente, creio que deve haver o momento de protestar e o momento de calar. E esse segundo momento não existiu. Havia momentos em que não sabiamos sequer o que a pessoa xingada estava falando… ela apenas era xingada. Isso é falta de educação. Agora, concordo com você de que a emenda foi pior que o soneto. Depois de tudo ir se retratar em cadeia de rádio é um pouco demais. É divisão demais para consciência política de menos (consciência, não engajamento político-partidário, você me entende). E só para afastar uma possível ideia de que eu defenderia o jornalismo sensacionaista há aqui no #CotidianaMente um post intitulado “Estupro na TV: liberdade de expressão ou sarcarmos midiático”. Caso alguém queira ler. Grande abraço e parabéns pelo Ócio Hiperativo!

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    • Posted by Simão on 28 de outubro de 2011 at 3:46 am

      Ah, nesse ponto acho que todos concordamos: ninguém defende esse tal jornalismo sensacionalista. Acredito que a divergência é sempre na forma como cada um não defende! Hheh!

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  3. Pois é, professor… Um debate que perdeu bastante o seu sentido (apesar das esforçadas tentativas da mediadora de retomá-lo). Fui lá até com a intenção de ter subsídios para um trabalho sobre ética no telejornalismo, mas em muitos momentos teve de tudo ali, menos ética.

    Penso que os protestos são válidos, desde que respeitem a integridade e o direito das pessoas ouvirem e serem ouvidas. A comunicação perdeu feio naquela noite, logo num debate de estudantes de Jornalismo, que subentende-se que compreendam que a comunicação, há muito, não é só o lance de Emissor-Receptor que a gente vê nos primórdios do curso. Alguns queriam que só a voz deles fosse ouvida e isso, definitivamente, não é o melhor caminho a se seguir para melhorar o telejornalismo paraibano.

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