Khadafi em bandeja de prata

Henrique França
@RiqueFranca

Além dos árabes e dos norte-americanos, muita gente por aqui comemorou as cenas pós-captura do ex-ditador líbio Muammar al-Khadafi, ensangüentado e arrastado por pessoas unidas pela catarse de euforia, ira, exorcismo e vingança. O mundo todo testemunhou violência, em um exercício de regressão social, via satélite, do que teria sido a Idade Média e suas execuções em praça pública em pleno Séc. XXI.

Triste perceber que as cenas de um Khadafi torturado e morto à queima-roupa foram usadas, aqui na praça-brasilis, como justificativa para a prática do chamado Jornalismo Sensacionalista. Não foram poucos os que acessaram o vídeo de sangue, poeira e Muammar e espalharam a outros no maior orgulho: “vejam, até a CNN faz jornalismo sensacionalista”. Outros perguntavam, com ironia: “e aí, quem reclama do jornalismo sensacionalista se até o portal ‘x’ faz?”

O assunto é delicado e merece o mínimo de cuidado antes de levantar a bandeira de uma imprensa cada vez mais responsável por mudanças sociais e culturais ao redor do mundo, incluindo nossa pequena cidadela e suas emissoras locais. Ninguém em sã consciência gosta ou deveria sentir prazer em mostrar pedaços de corpos trucidados na TV ou imagens de assassinatos e violência física explícita em fotografias nos jornais. Partindo dessa premissa, tudo parece recair sobre a sobrevivência das empresas de comunicação de massa, com base no famigerado índice de audiência.

E os argumentos parecem calar diante do “fazer para o público”, noticiar o que o telespectador/leitor/ouvinte/internauta quer receber. Assim, a sequência de ‘mazelas delivery’ parece justificada pelo agrado ao outro. Faz sentido, apesar de temeroso, pensar e agir com esse foco. Mas é preciso ir além nessa análise superficial do universo midiático – especialmente quando o assunto adentra nas teias da ética profissional.

Se veicular imagens de um homem ensangüentado sendo arrastado em praça pública como troféu é algo ‘necessário’, já que a audiência quer, que tal equiparamos a situação a outros tantos quereres do brasileiro? Sob esse aspecto, por exemplo, a “audiência” nacional também gosta de dirigir em alta velocidade – não raro aliado a uma dose de álcool. Vamos liberar os excessos nas pistas, abrandar a Lei Seca e fazer o que a audiência pede, de forma habitual, mesmo que não conscientemente. Agradar a população. Que tal?

Outra: o cidadão brazuca – do político que rouba ao pequeno empresário que sonega impostos – parece gostar do velho jeitinho brasileiro, que reinou absoluto por anos no Brasil, foi tema de peças publicitárias bem humoradas e ainda rende boas histórias nas rodas de conversas. Identidade nacional, diriam alguns! Então, por que não fazer vista grossa a essa ‘cultura da vantagem’ tupiniquim como a ‘audiência’ quer?

Portanto, justificar grosserias na mídia com base no gosto popular é tão equivocado quanto dar razão a corruptos e motoristas embriagados que circulam por aí acima da velocidade, porque gostam. Tudo precisa de limite. Daí a discussão profissional, ética. E a ética, aqui, precisa ir além da estética. E muito além do que o “povo gosta”.

Voltando à morte de Khadafi, uma das vozes mais sensatas sobre o caso veio da presidente Dilma Rousseff, que declarou: “nenhuma morte deve ser comemorada”. O mesmo cabe para a justificação do jornalismo sensacionalista – não devemos comemorar a morte de vítimas expostas em rede de TV como se fossem troféus, muito menos a morte do bom senso entre profissionais da informação.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 26 de outubro de 2011]

 

Anúncios

One response to this post.

  1. Posted by Katherine on 6 de novembro de 2011 at 6:07 pm

    É Henrique, incrível como as pessoas não refletem e acabam faendo parte desse absurdo que vem se tornando a mídia, o espetáculo denunciado por Foucault…não passou, continua nas praças e nos anseios sociais. O Estado com promessas falidas no que se refere aos direitos sociais, tenta compensar com uma outra fracassada que é a segurança… .
    No cenário internacional, isso é então mais vergonhoso e frustrante.Fico doida como a morte e suplício estão cada vez mais sendo naturalizado, justificado e esperado.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: