Criança estuda, mas não vota

Henrique França

@RiqueFranca

 

                Há tempos o sistema educacional brasileiro tem se pautado na política do construir muros de conhecimento sobre solo instável, pobre e sem condições de sustentar suas bases. O País vem comemorando avanços em pesquisa básica e aplicada, nas certificações de suas instituições de nível superior e com isso disfarça mal as deficiências no setor da Educação. Enquanto o “superior” traja smoking e chinelas, o Ensino Básico nacional é tratado como um mendigo incômodo e feio: melhor ignorá-lo ou oferecer uma moedinha que o faça guardar a mão estendida.

                A pergunta é: sendo fundamental para o desenvolvimento de uma sociedade, por que a educação no Brasil é tão mal dividida em termos de recursos, atenção e resultados? Uma das respostas básicas está no foco político: alunos dos níveis “inferiores” não votam, não têm poder direto de mudança, por isso são meramente coadjuvantes no esquema ‘menina dos olhos’ da gestão pública tupiniquim. Por outro lado, universitários, providos de um suposto senso crítico, democrático, político e social mereceriam, esses sim, esforços governamentais. Lego engano.

                O tiro no pé apressa-se em chegar. Nas avaliações o desempenho é cada vez mais pífio. Nos exames específicos – vale lembrar as provas da OAB aos bacharéis em Direito -, a peneira incomoda e envergonha. Se já existe uma pirâmide invertida no esquema Ensino Básico–Ensino Superior, o que acontece dentro das universidades e depois delas resume-se a um conta-gotas vergonhoso. Falta senso crítico (não confundir com gritaria anti-alguma-coisa), falta leitura, visão aguçada de mundo, de entendimento social, de respeito, de produção textual. Falta base – a mesma que dá nome ao segmento mais marginalizado da Educação do País.

                O caso do anúncio de fechamento de quatro turmas pela creche-escola da Universidade Federal da Paraíba é um exemplo desse descompasso. Fundada há duas décadas e atendendo a crianças da comunidade intra e extramuros da UFPB, a unidade anunciou que vai dispensar 60 alunos por falta de professores necessários para atender os pequenos, em 2012. A creche, que já chegou a ser considerada referência na educação básica, hoje encontra-se escondida por trás de prédios recém-construídos para os “superiores” via Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais, o REUNI. Virou casinha retrógrada em meio aos novos edifícios da modernidade acadêmico-científica exaltada Brasil afora.

                O mais absurdo é que, apesar dos recursos na ordem de R$ 35 milhões para construir 42 mil metros quadrados e da contratação de 80% novos professores prevista para 2012, tudo via REUNI, a UFPB parece não ter dado a mínima atenção a seus pequenos personagens – futuros “superiores”, pesquisadores, professores e, por que não, reitores. Há um olhar imediatista nisso que não combina com a visão ampliada que o universo acadêmico deveria proporcionar e incentivar.

                Em perspectiva, um processo de mudança foi iniciado com a aprovação de um projeto, pela Comissão de Ciência e Tecnologia do Senado, que pretende tirar do Ministério da Educação a responsabilidade pelo Ensino Superior. A proposta do senador Cristovam Buarque se justifica em números – tão queridinhos da Educação: atualmente, nada menos que 70% de todo investimento no setor vai para o ponto mais estreito e elitizado da pirâmide, o dos “superiores”. Assim, acredita o ex-ministro, com um Ministério focado na educação de base poderíamos ter melhoras no segmento.

                Enquanto isso não acontece, e voltando ao caso da UFPB, até agora a decisão de fechar quatro turmas e dispensar 60 crianças está mantida. Se há perspectiva de mudança no caso? Quem sabe. Talvez o assunto volte a ocupar os palanques no novo processo eleitoral que se inicia em torno da reitoria na UFPB. Porque criança não vota, mas sempre fica bem na foto dos candidatos.

 

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 29 de outubro de 2011]

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15 responses to this post.

  1. Posted by Laena Antunes on 31 de outubro de 2011 at 2:54 am

    Outro dia chegou um estudante no meu local de trabalho pedindo informações para um trabalho da faculdade. O aluno entrou na sala sem pedir licença e, sem ao menos se identificar, foi logo disparando o pedido de números.
    Perguntei para ele o que ele queria exatamente, qual o objetivo e, por curiosidade, quiz saber algo sobre a metodologia adotada, coisa simples, nada demais!
    Sem nada responder, o aluno pegou o celular e ligou para uma colega: – Alô, fulana! o que eu vim fazer aqui mesmo?
    Ele não sabia nem descrever a minha dúvida a pessoa do outro lado da linha. Mas, já estava em fase final de curso, iniciando a monografia. Pois é!
    Estão preocupados em encher as faculdades de eleitores, ou melhor, alunos, mas tem gente chegando lá que nem sabe escrever direito.
    Ah! metodologia de pesquisa? o que é isso mesmo? e educação de base, pra quê serve heim?

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  2. Posted by Veronica Ismael on 31 de outubro de 2011 at 2:54 am

    Politica Educacional: És o X da questão… Pensando no lado político, educar para quê?? Pessoas inteligentes, criticas não vendem voto, como iram ganhar o “poder”? A escola empodera as pessoas, elas não precisam disso, é assim que vários politicos pensam.
    Nossa!!!! Nós mulheres lutamos tanto p ter creche, uma política essencial, para acabarmos com a violencia contra a mulher, ver se fechamento de uma, sem um motivo justo e de dá raiva.
    As mulheres precisam estudar e trabalhar, e ter condições de livrar dos seus agressores. BRASIL olhe a sua volta, política de creche educa nossas crianças e melhora a vida das mulheres.
    Espero que a UFPB analise bem os/as candidatos/as a reitoria e que lutem para que a creche não seja fechada. Estamos na UEPB lutando para que tenha uma em cada Campus, para as alunas e comunidade.
    “Eu sou aquela mulher que fez a escalada da montanha da vida, removendo pedras e plantando flores.” Cora Coralina

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  3. Adorei a crítica! Afinal, o que seriam hoje os políticos brasileiros sem a massa de manobra indispensável em todas as eleições?
    Triste é pensar que um dos maiores problemas do nosso país poderia ser resolvido com um pré-requisito simples: boa vontade. Mas, realmente, não há interesse em se acabar com as falhas no nosso sistema educacional.
    Parabéns por trazer a questão à tona, com argumentos inquestionáveis. Os números do nosso Brasil dão uma vergonha…

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    • Patrícia, Verônica, Laena.
      É mesmo impressionante como podemos mudar toda uma história com tão pouco. Há semanas tenho produzido textos sobre educação, focando não raro nas crianças, porque esse é um assunto extremamente sério e que tem sido usado como brincadeira pelos gestores públicos Brasil afora – e o tipo de brincadeira descabida até mesmo às crianças.
      Obrigado pelas palavras de incentivo, que me movem e imprimem responsabilidade cada vez maior no opinar.
      E como estou falando com três profissionais da informação, façamos nossa parte divulgando, questionando, refletindo e apresentando propostas de mudança.
      Espero ler seus comentários mais vezes, por aqui.

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  4. Posted by Gustavo on 31 de outubro de 2011 at 1:45 pm

    O ponto está nisso. Min. Educação apenas com educação de base. Ensino Superior para o MCT. É um início, espero que dê certo.

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    • Vamos ficar de olho na proposta do senador Cristovam Buarque e pressionar através de ferramentas como petições públicas e enviando e-mails aos parlamentares. Temos meios para isso. Não podemos deixar a motivação arrefecer.
      Grande abraço, meu caro Gustavo.

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  5. Posted by Luciana Dias on 31 de outubro de 2011 at 8:23 pm

    Meu tio foi professor superior em Matemática na UEPB – PATOS, na época ele foi transferido pelo simples fato de ter pedido a seus alunos – de nível superior – que estudassem a tabuada!
    Somos um país de educação ZERO, onde quem nos governa insiste em dizer que é “presidentA” e que o ex-presidente, antes da “presidentA”, se orgulha em nunca ter lido um livro na vida… ninguem merece!!!!

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  6. Posted by Heretiano Gurjao Filho on 31 de outubro de 2011 at 9:00 pm

    Parabens pelo excelente artigo, sou Professor da UFPB\Campus II\CCA\Areia,
    Ministro as disciplinas de cálculo e estatística o que você escreveu eu comprovo
    com os alunos chamados feras (novatos). fiz uma pesquisa e 89% dos alunos
    confessaram que não tinha visto as disciplinas de Matemática, fisíca, Quimica e Biologia, pois eram passados trabalhos e assim obtinham as notas. Mais uma vez te parabenizo pelo excelente e oportuno artigo, merece ser repassado para todos os professores para uma reflexam e AÇÃO.

    Heretiano Gurjao Filho
    Professor – UFPB

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    • Professor Heretiano/Luciana, muito obrigado pelas palavras e por contribuir com esse debate-reflexão. Também tenho atuado como professor universitário nos últimos anos e a constatação é clara: cada vez mais temos recebido estudantes na esfera “superior” carentes de base, de senso crítico básico. Não é culpa simplesmente deles. É reflexo de um sistema que privilegia os resultados imediatos, aquilo que é tangível, que pode ser alardeado em congressos, encontros científicos, publicações disputadíssimas e por aí vai. O que falta perceber é que criança sem uma boa base educacional inevitavelmente se tornará um adulto no mesmo patamar de conhecimento. Mas, como sabemos, criança não vota, não é? Obrigado, mais uma vez.

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  7. Achei o texto oportuno relevante para reflexão, porém lamentol que somente agora este tema vem para o debate. Me cheira oportunismo eleitoral. Atitude que me enoja.

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    • Caro Antonio Joaquim.
      Não nos conhecemos e por isso recebo com tranquilidade sua impressão olfativa sobre o sugerido “oportunismo eleitoral” do texto. Longe disso, meu caro. O assunto veio à tona agora porque o anúncio do fechamento das turmas da creche-escola saiu nas páginas dos jornais um ou dois dias antes do texto que te levou à reflexão.
      Concordo com você sobre o asco a quem se apodera de qualquer discurso – escrito, falado, enfim – para promoção eleitoral.
      Não tive, não tenho e não terei essa intenção (se você quiser ler outros escritos do #CotidianaMente vai perceber isso). Guardo uma ligação de respeito e carinho com a creche-escola da UFPB, já que meus dois filhos estudaram lá e, mesmo sem este espaço para escrever, à época, briguei muito pela valorização da equipe de professores e de pais e alunos daquela unidade da UFPB tão discriminada.
      Se algo for feito a partir deste texto, por quem quer que seja, maravilha! Ele foi concebido para gerar resultados – seja em reflexão e debate, como o que estamos lendo aqui, seja por ações administrativas.
      Repudio qualquer tentativa de uso eleitoral deste material. Quem quiser criar um folhetim político-partidário que o faça por conta própria. Quem puder gerar resultados a partir deste discussão, que o faça pelo compromisso com a educação, não com foco nas urnas.
      Muito obrigado por suas considerações. Espero encontra-lo por aqui mais vezes.

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  8. Posted by Nilsamira Oliveira on 1 de novembro de 2011 at 12:16 am

    Excelente, Henrique!
    Você abordou de maneira bastante pertinente a questão da Creche-Escola da UFPB e da ausência de políticas de valorização da Educação Infantil, na Instituição Universitária que deveria servir de exemplo educacional para toda a Paraíba, tanto no âmbito público, quanto no privado.
    De fato, é, no mínimo, lastimável, que a Creche-Escola – leia-se “Educação Infantil oferecida a filhos(as) de discentes, docentes, servidores técnicos e de pouquíssimas pessoas da comunidade” – seja tão desprestigiada pelos órgãos da UFPB responsáveis pela sua atual fase de quase inanição.
    No entanto, vale destacar o empenho de todos(as) os(as) profissionais que trabalham na Creche-Escola. Não fossem estas pessoas e talvez que nem pudéssemos ao menos falar na (in)existência deste estabelecimento de ensino.
    Nilsamira da Silva Oliveira
    Professora da Carreira Ensino Básico, Técnico e Tecnológico da UFPB

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    • Professora Nilsamira.
      Você tem toda razão. Apesar do desprestigio “dispensado” à creche-escola, cada pessoa que ali trabalha merece o nosso respeito e carinho. Problemas sempre vão existir, mas descaso é bem diferente. E apesar desse descaso, é inegável a postura aguerrida dos profissionais que atuam na creche. Esse artigo, aliás, vai como uma força, um abraço textual, a essa equipe e a seus pequenos estudantes – esses, sim, o futuro do País.
      Muito obrigado pelas palavras.

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  9. Posted by Edineide Jezine on 2 de novembro de 2011 at 10:42 pm

    Olá Henrique França, sou Edineide Jezine Profa. do Centro de Educação e atualmente me encontro concluindo um pós-doc em Valência. Seu texto é pertinente e oportuno a ponto de me fazer pronunciar. Fui coordenadora da Creche-escola no período de 2008-2010 em uma situação peculiar que tive que apresentar um relatório de cerca de 30 páginas ao Diretor e Reitor demonstrando a real situação administrativa e pedagógica daquele locus de ensino, do qual entendia que deveria ser o melhor, inclusive para colocar meu filho, na época com 2 anos de idade e com síndrome de Down.
    Primeiro é importante esclarecer que a Creche é hoje Escola de Educação Básica da UFPB, sua aprovação de criação se deu em abril de 2010, próximo ao término de minha gestão. Que ela possui um Projeto Político Pedagógico para funcionar como tal até o quinto ano, e que apesar de se criada não possui sua legalização oficial nos órgãos competentes, pois não se deu prosseguimento a esse projeto, isso prejudica todas as crianças que concluíram esse nível de ensino. Pois, o que me consta falta a própria escola se pronunciar pelo alongamento até o Ensino Médio. Todavia esbarra no motivo que se alega para fechar as turmas, falta de Professores. Problema histórico, mas que para um instituição que forma professores não deveria ser problema. Principalmente, por que a função de uma Escola Básica dentro de uma Universidade é ser foco de pesquisa, intervenção, ensino, inovação, estágio, construção de saberes nas diversas áreas do Conhecimento…
    Para implantar o funcionamento da Escola e do ensino fundamental adotamos a política de monitoria, possível de ser feita e tivemos a entrada de cerca de mais de 15 bolsistas (alunos em formação, mas com base suficiente para o trabalho pedagógico) que trabalharam sob a orientação e coordenação de professores do Centro de Educação e da própria Escola, assim funcionamos… O Conselho foi reativado, o planejamento semanal foi reconduzido, a pedagogia de projetos implantada juntamente com a formação continuada de professores e reuniões de formação para o pais, a Escola se constituía e se construía em modelo, porém com muito trabalho em que pese o apoio às Reformas que foram feitas e os projetos de ampliação que ficaram encaminhados. E me entristece saber que muitas dessas ações hoje lá não existe mais e se efetiva o discurso que outrora se pronunciava internamente.
    Segundo é preciso entender a política de contratação de Professores do MEC, principalmente para essa modalidade de Ensino. Quando da Elaboração do PPP, em reunião em Brasília nosso projeto era o mais avançado, em termos de transformação de Creche para Escola. O NEI – Núcleo de Educação Infantil da UFRN não tinha projeto, hoje já é Escola Básica e faz concurso, ou seja, a contratação de Professores só vem se a própria Escola enfrentar o desafio de se reformular. De forma que essa questão da falta de Professores precisa ser enfrentada de forma legítima pela gestão da UFPB e do Centro de Educação e pelos próprios professores, pois existe professores desta categoria em outras funções e o professores deste nível de ensino possuem Dedicação Exclusiva. Nestes termos é preciso investigar de onde vem a decisão de fechar 4 turmas e com isso acabar com o projeto de Escola Básica? É lógico que essa decisão implica perdas, mas para quem??? Como os pais, professores e gestores da instituição estão buscando resolver este problema? Realmente temos necessidade de apelar para soluções mais fáceis e acomodativas?
    Um escola não nasce se constrói com várias mãos….
    obrigado pela oportunidade,
    Edineide Jezine
    Profa. Doutora em Sociologia

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  10. Posted by Alyne Rosiwelly Lima de Figueiredo on 5 de novembro de 2011 at 2:37 pm

    Parabéns pelo texto, que tão bem ampara tais questões relevantes para a sociedade em geral e em específico, para a comunidade da UFPB, no que diz respeito ao fechamento da creche – escola…E pensar, que no início do semestre, eu procurei saber quando começavam as matrículas pra 2012…
    Enfim, é muito triste acompanhar os rumos que a Educação está tomando no nosso país…o descaso com os professores e com o processo de ensino-aprendizagem na formação de cidadãos… É histórica essa preocupação dos políticos em formar pessoas capazes de servir de massa de manipulação!
    Nós, pais dessas crianças que serão o futuro da nação, não podemos de forma alguma nos entregar ao desânimo e achar que tudo está perdido, se afundar no comodismo e se deixar levar…
    Gente, vamos partir pra luta! Comecemos a mudar os rumos dessa realidade, dentro de nossas casas, com nossas famílias e nossos filhos! Respeito, Solidariedade e Amor ao próximo são a base para a construção de adultos felizes e cheios de esperança, capazes de fazerem um país mais Justo.

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