Avaliações que não validam

Henrique França
@RiqueFranca

 

Qual a ligação entre uma instituição como o Banco Mundial e o sistema de avaliação educacional brasileiro? Por que um documento internacional intitulado “Aprendizagem para todos” parece ser o norteador de um exame verde-amarelo chamado Enem? São respostas que não cabem em um contexto objetivo, como as provinhas de marcar ‘xis’ que “avaliam” o desempenho de estudantes e professores Brasil afora. O que se sabe é que, apesar de toda tecnologia empregada, o sistema avaliativo nacional tem sido montado cada vez mais para preparar robozinhos para o mercado de trabalho e menos para a formação de cidadãos para a cidadania, a reflexão, a vida. E não custa lembrar que o Banco Mundial fornece empréstimos generosos a países em desenvolvimento.

Toda essa teia de conexões seria exagero não fosse a declarada política de punição e premiação defendida pelo Banco e incutida nesses exames. O episódio da anulação de questões do Exame Nacional do Ensino Médio, recentemente, é mera ocorrência policial ou, no mínimo, de exposição sobre a fragilidade do concurso. Ganha relevância porque envolve falcatruas e muitas pessoas são prejudicadas. Pouco se fala, porém, nas avaliações de professores do Ensino Básico, via questionários “objetivos”, que resultam em decisões do tipo ‘maiores notas – mais verbas’. Ou seja: você está se dando bem, ganha mais subsídios para continuar crescendo. Está mal, perde recursos e torna-se marginal no processo do “crescimento educacional”.

Questões que não cabem na lógica do Enem, Enade e até mesmo nos chamados “vestibulinhos” feitos para crianças. E aqui mora um extremo perigo: as escolas brasileiras estão preparando pessoas não para pensar, mas para produzir, apresentar resultados, passar em uma prova, ser premiado. É notório o caso de pais que retiraram filhos de escolas que incentivavam – e ainda o fazem – a competitividade, a melhor nota, tudo como símbolo de status, respeito e aceitação na “comunidade” intramuros. Há quem promova honrarias públicas aos “melhores”. O resultado é que, não raro, alunos ‘mal sucedidos’ acabam enfrentando a depressão e o desgosto pela escola.

O mercado da educação é tão absurdo que até o Banco Interamericano de Desenvolvimento (BID) chegou a sugerir recentemente a diminuição da importância do professor em sala de aula, diante de um novo paradigma tecnológico de avaliação. Nas entrelinhas do BID, alunos podem aprender sem o auxílio de docentes, apenas usando a tecnologia. E esse direcionamento, evidentemente, também incide nas finanças: se a importância do professor é diminuída, pode-se reduzir também a quantidade desses profissionais nas escolas. E isso significa menos salários pagos com os “mesmos” resultados quantitativos entre alunos.

Vestibulares, sistemas de avaliação objetivos, pré-fabricados e que excluem o pensamento crítico são chamados somativos, pois resumem todo um semestre, um ano, uma vida escolar em uma folha de papel com número ‘xis’ de questões. Uma alternativa é a chamada avaliação formativa. A proposta é valorizar outras nuances do sistema de educação a partir da relação professor-aluno, do contexto de aprendizagem, de resultados a partir do diálogo e da ação. Em um sistema capitalista-educacional, porém, o enfoque formativo é dispendioso, requer preparo pedagógico mais aprofundado e paciência. Pode demorar mais. Mas quando a equação tempo e dinheiro não responde com extrema agilidade, qualquer instituição com nome “banco”, mesmo que voltada a questões educacionais, acaba anulando a questão.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 2 de novembro de 2011]

 

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4 responses to this post.

  1. Posted by Veronica Ismael on 2 de novembro de 2011 at 12:45 pm

    Educação o tema que nos ultimos dias vem sendo o tema principal da mídia brasileira.
    O sistema de avaliação educacional como todo, é um sistema falho, como é que uma prova diz o conhecimento de um/a aluno/a??? A forma que assistimos aula cada um/a de costas p outro/a, como isso educação para a sociedade??? Como podemos virar seres humanos capazes de ser criticos????
    Bom… Acho que temos muito avançar… Estamos parados no tempo da educação.
    Saudações Estudantiis

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  2. Posted by Juliana Marques on 3 de novembro de 2011 at 11:40 am

    Deu uma paradinha rápida das tarefas do dia a dia para ler um dos seus textos, como sempre carregados de crítica e que nos mostra a realidade que está à nossa frente e nós não enxergamos. Infelizmente a realidade da Educação brasileira é triste e caminhamos numa direção perigosa. Concordo plenamente com você, temos que repensar esse sistema de avaliação usado atualmente e, principalmente, discutir quais os valores que devem reger o nosso país. Parabéns Henrique, excelente texto!!!

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  3. Legal. Isso me lembra um pouco EaD. Me desculpe a comparação, mas já ouvi de professores que esse é o futuro pra educação. Me desculpem, novamente… se for, formaremos médicos e/ou o que quer que seja por meio virtual? Engraçado também são as escolas que dizem: Um iPad por aluno. Por aí, dá pra se tirar centenas de conclusões. Para isso, vale a frase: “O que se sabe é que, apesar de toda tecnologia empregada, o sistema avaliativo nacional tem sido montado cada vez mais para preparar robozinhos para o mercado de trabalho e menos para a formação de cidadãos para a cidadania, a reflexão, a vida.”

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  4. […] – e apresentam índices de aprovação em vestibulares, exames diversos, concursos e afins. O sistema educacional tem se tornado uma máquina de enlatar concurseiros bem sucedidos. Como? Dicas, simulados dissimulados, e não raro situações que levam escolas para as Delegacias […]

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