Muita rebeldia para pouca causa

Henrique França
@RiqueFranca

 

Talvez por terem ido juntos ao cinema assistir o excelente documentário “Rock Brasília”, do paraibano Wladimir Carvalho, os estudantes da Universidade de São Paulo (USP) decidiram organizar uma “roconha” dentro da Academia e, flagrados, deram início a um escarcéu dos mais vergonhosos para a juventude brasileira. Em primeiro lugar porque, diferente dos enfrentamentos com policiais protagonizados na Universidade de Brasília (UnB), inseridos no filme de Carvalho, o quebra-quebra da USP acabou saindo pela culatra: foi muito vandalismo por nada.

Desde o primeiro momento, imagens flagraram o “fora PM” de forma desastrosa. No meio da multidão, alguém lança um cavalete de madeira sobre policiais e está armada a confusão. Depois, feito meninos birrentos, os estudantes decidem invadir prédios da Universidade, jogar pedras nos carros da polícia, fechar acessos com pedras e paus, quebrar placas do Campus em que estudam e deveriam zelar, queimar bandeiras e esconder o rosto. Tudo porque um grupo de amigos que fumava maconha foi detido? Bem, pensemos: se essa juventude tem força para fazer tudo isso diante de um motivo tão pífio, o que fariam em uma mobilização tipo “fora corruptos” ou “abaixo o analfabetismo”. Uma revolução, não? Que nada.

Contra a polícia, contra o reitor, contra a mídia, contra, contra, contra. Ótimo. É bom ser do contra. Mas eles foram favoráveis a que, mesmo? Houve quem bradasse “fumar maconha não é crime”. Bem, quem quiser se valer de códigos, leis e afins fique à vontade, mas invadir e depredar prédio público, desacatar policial, negar o direito de ir e vir dentro de uma instituição pública, aberta, é crime – gostemos ou não das premissas. E mais: se não pode fumar maconha no morro porque poderia na USP? E isso vale para qualquer morro e Universidade do País. Há quem reclame que os estudantes uspianos estariam sendo tratados como filhinhos de papai. Melhor seria filhinhos de mamãe, pois pelas carinhas de mimados e ideais do tipo “colegial” não há melhor definição. Barbudos e feios no colinho da mama.

Uma imagem chamou a atenção. Depois da desocupação do prédio, mais de 70 detidos, a grafitagem na parede do edifício-sede dos rebeldes mostrava três estudantes virando uma viatura da polícia. Nas camisas dos alunos-desenho, todos devidamente encapuzados, símbolos do Anarquismo, do Comunismo e uma frase: “fora PM”. Aliás, essa parece ter sido a frase-motora de todo o movimento parou a maior Universidade brasileira. Talvez a única. O relato de um jornalista que assistiu a uma das assembleias dos rebeldes uspianos revelou a falta de base de sustentação do protesto-pro-canabis. Um dos estudantes, ao pegar o microfone, sugeriu expandir o movimento “fora PM” para alunos secundaristas de São Paulo. A grande ideia? “Fora patrulha escolar”. É ou não é o máximo do ridículo?

Sim, a polícia é mal preparada para lidar com a população, sob pressão. Sim, há um governo direitista que manipula e faz crer que qualquer motim é contra a sociedade paulistana, mas qual é mesmo o resultado de tantos “foras”? Prisões, mais gente posando para a foto diante do paredão de policiais da tropa de choque e alguém inspirado na novela “Amor e Revolução” oferecendo uma flor ao policial? Tudo tão ensaiadinho e pastelão. Se a polícia é ruim, briguemos pela sua melhoria, não contra ela. Se o político é corrupto, saiam às ruas para retirá-lo do poder. Esmurrá-lo não vai nos livrar dele. Esconder-se em um prédio com panos encobrindo os rostos é uma atitude meramente covarde. Nem mesmo a turma da USP do período da ditadura militar, certos dos riscos de tortura e mesmo morte, chegou a isso. Todo mundo de cara limpa diante dos soldados armados, amados ou não. Já não se fazem mais causas para rebeldes como antigamente.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 9 de novembro de 2011]

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3 responses to this post.

  1. Posted by Kelly Pontes on 10 de novembro de 2011 at 3:25 pm

    Concordo pelnamente com o texto. Percebo que nos dias de hoje os jovens desconhecem o que de fato é direito e deveres. Desconhecem que os seus direitos vão até onde começam os direitos dos outros. Ou seja, nessa ocasião de “luta”, eles bradam o direito de fumar maconha na USP alegando não ser crime. Ridículos e por que não dizer, burros. Pedem a retirada da polícia do campus, mas esquecem que a maioria dos estudantes de lá não concordaram com isso. Aí meu caros acadêmicos( rebeldes sem causa, principalmente justa), o que responder ao fato de que a maioria também luta pelos seus direitos de ter a ordem e segurança no seu local de estudos? E como a maioria é sempre vencedora, posso responder que foi inútil e infeliz a tentativa de bradar aos quatro ventos um “direito” forjado, sem fundamentos. Direito de de ir e vir é pra todo mundo como, também, os deveres também são. E pra começar, o que os alunos tão dedicados a maconha fizeram com o seu DEVER de manter a ordem?

    Kelly Pontes

    Responder

  2. Posted by Carla Quintas Vieira on 10 de novembro de 2011 at 3:56 pm

    Excelente Henrique!! Parabéns!! No seu texto tem tudo e mais um pouco do que acho que foi toda essa palhaçada da USP.
    Bjo

    Responder

  3. Posted by Juliana Bandeira on 11 de novembro de 2011 at 12:18 am

    Recebi pelo facebook um texto produzido por alunos da USP dando a versão deles para tudo que está acontecendo. Até bastante sereno, repreendendo a baderna realizada por “alguns” que eles dizem não falar pelos cerca de 3 mil estudantes que estão reunidos contra a PM na Universidade e contra o tal Rodas, acusado de corrupção. Compartilhei o texto em que eles pontuam suas revindicações item por item, até porque acho que ouvir a versão de todos é uma premissa dos jornalistas.

    Concordo com as políticas de urbanização, melhor iluminação, com investimentos na guarda universitária e autonomia administrativa não só da USP como de qualquer instituição de ensino superior pública. Todos esses pontos citados pelo texto dos estudantes são bastante pertinentes. Mas sou a favor da PM simmmmmmmm. Guarda universitária não pode andar armada e bandido, meus amigos, não têm medo de cassetete. Falo como mulher e como estudante que morria de medo de ser estuprada no Campus da UFPB. Casos como este já aconteceram ao meio-dia, portanto não é a iluminação que anda intimidando esses marginais.

    A PM, sem a menor dúvida, intimida muito mais os mau-intencionados. Não evitaram a morte do estudante na USP, é verdade… mas só Deus sabe os crimes que deixaram de acontecer pela presença dos mesmos. Quanto a excessos de policiais ou desvios de conduta, sou a primeira a defender que os acusados sejam investigados e banidos, pois não são dignos de pertencer a uma corporação que merece o profundo respeito da população. Lembrem-se, os policiais são os bonzinhos, o contrário é que é a exceção. Me recuso a desistir de acreditar nesses profissionais que escolheram defender a todos nós e continuo a torcer para que os bons possam extirpar essa corja de marginais que ousam vestir uma farda.

    Com relação à acusação de corrupção sobre o tal Rodas, sou totalmente a favor do levante e do combate à corrupção. Mas lembrem-se, estamos falando de estudantes da USP…. uma das melhores, senão a melhor, universidade da América Latina…. para entrar nela tiveram que mostrar toda a “inteligência” que possuem… são por consequência também considerados “os melhores”… tenho certeza que são espertos suficientes para pensar em alguma coisa realmente eficaz para solucionar este problema e não a palhaçada que estamos assistindo, e não só pela grande mídia, mas também pelos canais alternativos como as redes sociais.

    Texto incrível Henrique. Me desculpe por um comentário tão extenso (quase desabafo), mas o seu texto me deu a oportunidade de expressar os pensamentos que desde que essa palhaçada começou queria externar.

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