Idiotização via Twitter

Henrique França
@RiqueFranca

Parece mesmo que a internet veio nos dar asas e garras para voar e arranhar com palavras, imagens, sons e cores via web. O problema é que a não proximidade física causada pelo universo “virtual” nos tem feito cada vez expostos e covardes, mais galinhas e menos águia nesse contexto binário (tomando emprestado as considerações do teólogo Leonardo Boff sobre as duas aves). Pois esta semana a idiotização se fez exposta novamente na Rede. O motivo? Um rapaz chamado Júlio que gravou um vídeo na BR 230, sentido João Pessoa – Campina Grande, fazendo declarações consideradas xenófobas, machistas e homofóbicas de uma só vez. Isso em apenas um minuto de gravação.

“Olha o que um ‘Paraíba’ é capaz de fazer”, debocha o rapaz, fazendo referência a um caminhão tombado em plena BR. O interessante – para não dizer vergonhoso – é que, além de brincar com um acidente aparentemente grave em uma rodovia, o rapaz descolado e moderno das pistas grava o vídeo enquanto dirige, constituindo prova contra si da infração de trânsito. O vídeo, claro, foi postado na Internet e a partir daí provocou reação imediata de paraibanos, admiradores e cidadãos não-idiotizados que responderam com a frase #ParaíbaComOrgulho.

Toda essa celeuma, porém, não foi causada apenas pela expressão sobre “os Paraíba”, repetida às dezenas na história do Brasil e oralizada até por celebridades. O tal Júlio vai além: “Gente, eu to tão injuriado com a Paraíba. Eu cheguei aqui, fui maltratado, uma cidade que não tem mulher, cheia de viado (sic) passeando à beira-mar. To p** da vida. Paraíba é uma b***. Não venham na Paraíba (sic), não venham em João Pessoa, porque isso aqui é uma m***.”

O que poderia ser apenas uma piadinha de mau gosto, um desabafo ou uma declaração de idiotice, mesmo, tornou-se motivo de repúdio e ação judicial que a Ordem dos Advogados da Paraíba – Seccional Paraíba deve impetrar contra o rapaz. O anúncio veio rápido, via Twitter: “Jovem que fez vídeo e circula na internet, promovendo preconceito, será alvo de processo por danos morais ao Estado” foi a informação postada na página da OAB Paraíba.

Alguém já disse que apenas reproduzimos o que somos na Rede Mundial de Computadores. Parece que a questão vai além. A sensação do não pertencimento, do não olhar, não receber uma expressão de desaprovação imediata nos faz seguir adiante – seja nos elogios, seja nas declarações das mais débeis. Ao que parece, temos transposto o conceito de multidão, do anonimato em meio aos milhares, para o ambiente digital. O equívoco é que, neste, pode-se pinças suas palavras, imagens, movimentos e alçá-los como um protagonista de um circo das idiotices. É o caso.

Ao final do dia e depois de centenas de mensagens de repúdio – e xingamentos, inclusive -, o rapaz se manifestou timidamente em seu perfil no Twitter: “Essas pessoas estão me agredindo à toa”, escreveu, para depois dramatizar. “Vocês estão sendo arrogantes e injustos. Eu ajudei akele (sic) caminhoneiro. Ele não teve nenhum ferimento. Fizemos o vídeo como uma paródia…”. Parece que a paródia do rapaz, que por sinal trabalha em uma empresa de rastreamento de veículos e deveria zelar pela segurança nas estradas e não parodiá-la, saiu pela culatra dos bits.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 23 de novembro de 2011]

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