Plagiando a ignorância

Henrique França
@RiqueFranca

 

Na Roma Antiga, o termo “plagiarius” significava “alguém que roubava escravos”. Na babel-cibernética-da-web de Séc. XXI, o plágio continua sendo festejado em outras arenas – dos corredores das empresas às fileiras acadêmicas, passando pelos palcos artísticos. Só que hoje o roubo não é mais o de escravos, mas o da criação alheia. Aliás, a premissa se inverte no sentido de que torna-se escravo da ignorância, sim, aquele que opta por plagiar – já que o termo está diretamente ligado a assinar, representar ou imitar descaradamente algo alheio como sendo seu. Uma realidade, infelizmente, que de tão presente tem-se tornado doentiamente “natural” – especialmente nas esferas escolares.

Tão natural que a notícia de agressão sofrida por um professor universitário na Paraíba, após apontar como plágio um trabalho de conclusão de curso de uma aluna, ganhou ares de debate sobre a segurança no campus e, ainda mais surpreendente, sobre a indignação da estudante acusada e reprovada. Foco secundário foi dado à denúncia ‘plagiária’. O docente foi agredido em um segundo momento, quando aplicava uma prova, em outro horário e outra turma, e não durante a defesa da banca. Segundo o registro policial, o marido da aluna entrou na sala de aula e desferiu um golpe de surpresa no professor. E ela, apesar disso, afirmou que vai acionar judicialmente o professor.

Não há como creditar, aqui, culpa ou inocência aos atores envolvidos na situação. Que a direção da Universidade – e a polícia, agora – cuidem do caso. O fato é que a prática do plágio anda tão institucionalizada que chegamos ao absurdo de encontrarmos na web e fora dela pessoal especializado em pesquisar, escrever e enviar – via correios, pacotes prontos – de artigos científicos a teses de doutorado, a custos variáveis, mas perfeitamente parcelados no cartão de crédito. Alunos “espertos” nessa seara sabem citar sem pestanejar nomes de sites desse tipo de negócio rentável e criminoso. Há gente “instruída” envolvida, também – com mestrado e doutorado, e especializada em malandragem.

Sim, plágio é crime previsto no Código Penal Brasileiro, que em seu artigo 184 aborda a questão: “Violar direito autoral: Pena – detenção, de 3 (três) meses a 1 (um) ano, ou multa.” Está lá! Mesmo assim, está nas escolas do Ensino Básico e nos laboratórios e auditórios do Ensino Superior. Uma vergonha, mas não uma novidade. Isso, repetindo, sempre existiu. O pior, porém, pode piorar: quem plagia, agora, não admite a rebordosa pela atitude criminosa e vil. Vai à forra, quer direitos, tem raiva do professor que leu um trabalho o tempo todo enganado pela malícia de quem declarou tê-lo produzido. Busca vingança. Independente de culpa ou inocência, esse é o debate que precisa ser feito na esfera universitária. Se ninguém tem o direito de apoderar-se de produção alheia indevidamente, que direito essa pessoa teria em requerer direitos?

Todo estudante minimamente conectado com o curso que faz sabe que a própria estrutura de escrita de um trabalho, especialmente o acadêmico, comporta possibilidades de citações de outras fontes – o que, aliás, enobrece o resultado final. O problema está na confusão “inocente” entre a citação e a reprodução não creditada e bem descarada. Qual o sentido de sair de um nível escolar baseado em cópias e na antiética criminosa ao apoderar-se de um conteúdo de outrem como se fosse seu? Que tipo de profissionais serão? Que tipo de reputação uma instituição que fecha os olhos a esses caminhos terá. Sim, porque o fato de outros professores não denunciarem plágio, mesmo fazendo parte da mesma banca de avaliação, não significa nada. Professores também erram – e muito. Não poucos, aliás, têm certo constrangimento em denunciar. Afinal, depois um soco como represália a um plágio, quem duvida que isso possa ser ampliado para uma facada por uma nota baixa ou um tiro por uma reprovação? Todos esses crimes, aliás, contido no mesmíssimo Código Penal onde está a contravenção “plágio”.

Não vale a pena transformar o universo escolar em uma arena romana. Em tempos de webeducação, é preciso repensar o ensino no Brasil, repaginar formatos avaliativos, expandir o respeito, mas jamais abrir mão da responsabilidade de compartilhar conhecimento genuíno e comprometido com a ética – doa a quem doer.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 17 de dezembro de 2011]

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3 responses to this post.

  1. Posted by oengenheiro on 19 de dezembro de 2011 at 7:45 pm

    Boa parte dessa culpa vem das exigências de produtividade do MEC, que em nada melhora a qualidade do sistema educacional brasileiro nem a dos nossos professores. Perdemos até para a China em matéria de educação. Nunca fez tanto sentido aquela máxima do “finge que ensina e eu finjo que aprendo”. Mas o importante é ganharmos a Copa.

    Responder

  2. Culpa? De quem é a culpa? De nós, que elegemos pessoas responsáveis por implantação de políticas públicas na Educação? Culpa nossa, que não aprendemos, as lições que nossos pai sempre nos dão? Ou culpa de nossos pais, que por vezes, podem não ensinar os sentimentos de respeito, tolerância e dignidade?

    É difícil apontar algo, alguém ou alguma coisa como “culpado”. É um pouco de tudo que forma o todo; esse, com rédeas no respeito, tolerância e dignidade. Citei esses sentimentos porque sinto que são os mais essenciais na natureza humana.

    A questão agora é: apontar rumos, para discussão de uma filosofia de construção do conhecimento que ultrapasse essa morosidade do CTRL C/CTRL V. Ainda mais, no ambiente virtual e de compartilhamento de informações a um nível tão diversificado, cabe a movimentação de conscientização de que o que eu fiz toca diretamente a questões de licença. É de deixar claro que existem licenças de uso, e que essa ou outra podem nortear caminhos de uso de conteúdos (CC, Copyright, Copyleft etc).

    É muito pano pra manga. Mas fica aí minha contribuição.

    Responder

  3. Posted by Simão on 20 de dezembro de 2011 at 4:10 am

    Independente dos culpados, companheiros, plagiar continua sendo crime. E ponto.

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