Vergonha do bicho-homem

Henrique França
@RiqueFranca

 

Um grupo de crianças, por diversão, empala gatos de rua e os arrasta pelas calçadas às gargalhadas. Adolescentes, também por prazer, batem em cães com pedaços de pau para torná-los “bons de briga”. A lista é extensa: adultos que assistem a galos se flagelarem; gente que, por “esporte”, persegue e derruba bois pelo rabo – que, não raro, acaba sendo arrancado; ‘bombados’ que trancafiam cachorros em quartos escuros e os espancam, preparando-os para competições. Pessoas-bicho, bicho-gente.

Nos últimos dias, um vídeo que mostra uma enfermeira batendo, lançando ao chão e trancando um cãozinho yorkshire em um balde plástico capitaneou milhares de acessos via internet e mobilizou meio mundo de pessoas pedindo punição à agressora, que levou o animal à morte. O detalhe sórdido do triste flagrante: a enfermeira conseguiu seqüenciar cerca de 3 minutos de tortura animal diante da própria filha, criança.

Cenas como essas se repetem diariamente, em condomínios de luxo ou em favelas desprovidas do mínimo – muito mais nos primeiros do que no segundo, diga-se de passagem. Por quê? O que nos torna tão miseráveis a ponto de acertarmos a cabeça de um animal com um objeto pontiagudo ou arrancarmos o rabo de um boi para provar virilidade? O que nos leva a arrastarmos um cão pelas ruas, com um saco plástico amarrado à cabeça do animal, diante de todos? Precisamos mesmo chutar animais para torná-los como espelhos da nossa ignorância, arrogância, nossa condição vergonhosamente “humana”?

Desde que o mundo é mundo o bicho-homem acha que pode e deve mandar em tudo e em todos.Do “dominar sobre os animais” do Gênesis às arenas de rinhas de galo e da matança de grandes animais em prol da ostentação via casacos de pele e peças ornamentais feitas de ossos ou chifres exóticos, o homo sapiens tem dado provas de que sua sapiência vale menos do que os dejetos de qualquer um desses quadrúpedes.

Querer matar a enfermeira-torturadora, xingá-la, desejar o mal à mulher é igualar-se à desculpa da dondoca, que justificou a absurda violência diante da filha porque teve “um dia ruim”, porque estava “estressada” e “ficou chateada porque o cão fez xixi na casa”. Aliás, nossa hipocrisia é ridicularmente humana. Bicho – que, dizem, não pensa – não consegue ser hipócrita. Gosta ou não gosta. Mas quando não gosta se afasta, sabe cuidar do seu espaço, defende o que é seu, mas não se vinga, não mata por prazer – esse prazer sarcástico é exclusivamente humanóide.

Não é intenção, aqui, simplesmente defender os animais. Sim, eles merecem proteção, infelizmente, porque se fossem tratados com o mínimo de respeito à vida precisariam de cuidados. Proteção é para quem sofre ameaças, encontra-se em estado de fragilidade. Novamente, o homem criou a violência, e agora pede a capa protetora. A intenção é voltar os dentes para o humano, rosnar para a hipocrisia, latir para o sadismo, morder o desamor daqueles que dispõem de um “tele-encéfalo altamente desenvolvido e polegar opositor”, como diria Jorge Furtado, em Ilha das Flores.

O que somos além de pó? O mesmíssimo pó dos cachorros, gatos, galinhas e bovinos que torturamos todos os dias, como se fossem inferiores. A diferença está na “inteligência” humana – essa mesma que, como no caso da enfermeira, nos torna vergonhosamente piores do que os cães “irracionais” e sua lealdade respeitosa. É quando bate a vergonha de ser um bicho-homem.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 21 de dezembro de 2011]

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One response to this post.

  1. Posted by Veronica Ismael on 22 de dezembro de 2011 at 2:27 am

    Ainda nos deparamos com os animais em jaula pequena para ser vendidos em pet shopping. Passando as vezes fome e sede. O pior que ninguem faz nada.

    Responder

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