Uma troca de natal

Henrique França
@RiqueFranca

 

Tanto se falou, escreveu, cantou e interpretou sobre o natal que a tarefa de fazer referência à data sem cair no lugar-comum é quase impossível. Então, que tal trocar o natal de hoje, do imediato, pelo natal de sempre, de fato? Comece retirando a idéia de que essa é uma data de abundância material e colocando em seu lugar a certeza de que este é um momento de renúncia e desapego. Leia sem demagogia:

Comece por trocar, na mais óbvia sugestão, o Papai Noel pelo Emanuel. Creia ou não, o menino Cristo que nos dá sentido nestes dias de dezembro é o protagonista da mais impactante e sincera história da humanidade, de lições que vão muito além dos dogmas e da nossa mania de direcionar interesses. No outro oposto, o “bom velhinho” trabalha diretamente com interessados e interesseiros: presentes, pedidos, promessas e a suposta visita fantástica uma vez por ano. Assim, o melhor é trocar o Papai Noel do calendário pelo Messias diário.

Aproveite, troque as promoções pelas orações. As lojas de departamento pelo silêncio do seu quarto ou pela sala-de-estar. Troque atendentes e recepcionistas em hora extra pelos filhos, sobrinhos, pais, amigos de todas as horas. Troque o excesso de álcool nos copos pelo vinho compartilhado. Porque está na intenção, e nunca na ingestão, o sentido maior. Embriague-se de risadas, memórias, abraços e histórias vividas ou imaginadas.

Troque a canção melancólica nos alto-falantes, cujos acordes direcionam muitos ao caminho da nostalgia e da depressão, por uma música vibrante, dançante, enérgica. Porque celebramos nascimento, vida nova, alegria de criança e um novo caminho pela frente. Troque o pronunciar de tantas palavras indiretas, expressões sem sentido e termos pejorativos que dão “graça” à conversa por palavras de afeto, frases silenciosas de agradecimento e reflexão. Mas não esqueça: leve festa para esse silêncio!

Esqueça a idéia de que natal deveria ser todo dia, porque uma data precisa ser marcada, comemorada; curta o sabor desse dia e lembre-se, sim, de rememorá-lo toda a vida – assim como você lembra, até hoje, dos sabores daquela fruta, daquele vinho, daquele fim de tarde. Cada momento que ficou impresso na memória não pelo paladar, simplesmente, mas pelo conjunto de sensações e sentimentos que o contexto despertou. Que lugar era aquele? Que pessoas estiveram ali? Que canção tocava? Que cheiro tinha? O que você sentia?

Aproveite essa lista e troque seu ceticismo pela certeza de que há uma história sendo contada há mais de dois mil anos e que, apesar da ‘carnavalização’ feita por falsos profetas e lobos em pele de cordeiro, ela se mantém atual, forte, viva e exemplar. Espelhe-se nessa história, e não em seus contadores modernos, bem vestidos, eloqüentes e midiáticos.

Falando em mídia, neste natal troque as várias horas nas redes sociais por segundos ou minutos de um abraço, um olhar, um toque – coisa que a web não dá. Porque natal é presença, pele, gestos e olhares. O virtual não alcança o natal.  Finalmente, desfaça a idéia de que essa é uma data de glamour, presentes caros, ostentação, fartura de bens e comida, um senhor gordo e corado oferecendo, em 30 segundos na TV, um prato visualmente saboroso. Porque a Criança responsável por todo natalício veio ao mundo para um sentido bem diferente: humildade, família, renovação, esperança e vida. E isso não se troca por nada.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 24 de dezembro de 2011]

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3 responses to this post.

  1. Posted by Maria josé Cabral on 24 de dezembro de 2011 at 4:05 pm

    lindo texto… e como é bom termos essa consciência… Que a nossa vida continue sendo a expressão do amor de Deus, e que Jesus, além de nosso Salvador, seja o Senhor… um grande abraço.

    Responder

  2. Posted by Tadeu Silva Nascimento on 27 de dezembro de 2011 at 3:38 am

    Texto rico é assim. Sempre deixa profundas reflexões. e Natal é tempo bom de repensar a vida e suas formas.
    Valeu Henrique… Que agora e em todos os dias, só as melhores coisas te aconteçam.

    Responder

  3. Quando alguem erra conosco e ainda mais quando erra duas ou mais vezes, sendo duas necessárias para não termos compaixão e amor.

    Responder

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