O Teló que nos cabe

Henrique França
@RiqueFranca

Um tanto quanto menos quente, o prato pode revelar novos sabores. Por isso, refletir sobre a polêmica em torno do sucesso do cantor Michel Teló e sua conseqüente imagem defendida por uma revista nacional, na última semana, pode nos dar agora novos olhares a respeito do caso. A discussão sobre a competência ou não do artista paranaense, seu olhar empreendedor sobre a música, a estratégia de marketing digital e o sucesso internacional do hit “Ai, se eu te pego” pode até render um debate acalorado ou resultar em discussões entre extremistas. Mas, e se o alvo não for Teló e sim nós, debatedores de sua imagem jovial e sorridente?

Não faltaram críticas severas à afirmação da imprensa de que Michel “traduz os valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes”. Mas, e se a frase, por mais triste que seja, for verdade? E se o povo brazuca se identificar, de fato, com os “ais” e “delícias” entoados repetidamente por Teló? Antes que o radicalismo interrompa a leitura, partamos da premissa de negação do enunciado. Suponhamos que o autor de “Ai, se eu te pego” está longe de nos traduzir. Que tal, então, uma listagem dos nomes da nova geração de artistas populares para substituí-lo? Quem traduz a música popular brasileira para milhares de pessoas que investem horas diante de uma TV ‘pasteurizada’, de rádios vendidas e torres de alto-falantes que percorrem as ruas das capitais e cidades do interior sobre carrocerias de caminhonetes e porta-malas de gente que se acha no direito de obrigar toda uma comunidade a ouvir o seu lixo sonoro?

Sim, fatalmente Michel Teló entoando “Ai, se eu te pego” entrará na lista dos ‘tradutores’ da atual musicalidade tupiniquim. E não, a culpa não é apenas de quem produz canções com dois acordes, quatro palavras em rimas pobres e um punhado de gemidos – talvez esses sejam, sim, os mais espertos, ou apenas o reflexo do repertório que os alcançou durante toda a vida. Assumamos nossa culpabilidade auditiva. Está lá no programa de domingo a canção recheada com garotas seminuas e prêmios que nos fazem sonhar com o mundo imaginário da propaganda em forma de auditório. Desligamos? Mudamos de canal? Escolhemos algo menos “ruim”?

A pirataria, nesse sentido, veio dar alguma “democracia” no acesso a artistas da música, do cinema, dos palcos. Pergunte a um desses vendedores quais os discos mais procurados. Ali, certamente, você também encontrará Michel Teló disparado – mesmo que na mesmíssima banca, pelo mesmo valor (ou até mais barato) seja possível adquirir gravações de Gil, Caetano, Jobim, Alceu, Marisa, Eller, Teixeira, Milton, Chicos e afins. Se alguém te oferece comida claramente gordurosa, salgada demais, oleosa e indigesta e você aceitar, se refestelar no prato, onde estará o problema? Teló está fazendo sua parte, como empreendedor da indústria cultural. E nós, com todo o nosso paladar crítico, estamos dispostos a mudar o cardápio?

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 7 de janeiro de 2012]

Anúncios

2 responses to this post.

  1. “Assumamos nossa culpabilidade auditiva!”
    Texto show!

    Responder

  2. […] Sobre Henrique França « O Teló que nos cabe […]

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: