BBB e o estupro do bom senso

Henrique França
@RiqueFranca

O brasileiro tem sido violentado, diariamente, e nem se dá conta disso. Muito mais do que a polêmica em torno de um suposto estupro na casa do BBBobo – que, não se assustem, deve se tornar uma excelente alavanca de audiência –, é preciso colocar em questão a forma lasciva com que milhares de testemunhas dos “brothers” e “sisters” estão sendo empalados intelectualmente.

Se não é isso, como explicar a alegria – até dos mais críticos – em poder acessar gratuitamente a cena do possível estupro via Internet, equiparando-se aos ‘privilegiados’ que pagam para assistir ao programa durante as 24 horas? Há um voyerismo doentio aqui. O vídeo foi retirado dos canais oficiais do aBBoBalhado programa em vão. Várias cópias do abuso circulam livremente pela web e, a cada nova notícia sobre o assunto, um link “esclarecedor” se subscreve: “confira o vídeo do casal sob o edredom”. Assim, as pessoas acessam as imagens e desconectam o bom senso. São milhares de visualizações de um provável estupro, um prazer em ver repetidamente a humilhação alheia.

Exagero? Há algo mais nas entrelinhas dessa BBaBaquice midiática. O que precisa ser debatido não é simplesmente a cena, a existência ou falsidade do abuso, mas a permissividade com que tratamos as questões públicas, de conteúdo aberto, a naturalidade com que recebemos o absurdo. Vale lembrar que TV é concessão pública. Somos nós, audiência, que pagamos pelo lixo ideológico vendido em embalagem de luxo com equipamentos de última geração e conteúdo degenerativo. Esta é a segunda vez em uma semana que o programa de três letras e várias reticências ocupa este espaço. Não é o produto em si que incomoda, mas o que ele tem produzido nos “brothers”, “sisters”, pais, mães, homens, mulheres e crianças (sim, há crianças vivendo a rotina da “Casa”) de um País que tem feito do sadismo sexual e da violência seus pratos principais do dia a dia.

Se parece agressivo demais, que tal uma comparação? Na Casa dos BBaBacas, uma participante sai embriagada da festa, divide a cama com outro “brother” e torna-se vítima de um suposto abuso enquanto dorme, inconsciente. Inocente? Do outro lado da tela, com o controle nas mãos, o telespectador se deixa mergulhar no “reality”, entra em estado de letargia, torna-se parte do “show” e, junto com ele, sorri, chora, torce, xinga, dorme sem perceber e acorda no dia seguinte BBBolinado em princípios, conceitos e intimidades. Culpado?

Não é preciso assistir a um episódio sequer dessa novela forjada para perceber a que ponto chegamos. Pesquisas mostram que este vinha sendo o pior índice de audiência do BBBobo, até aqui. Mas tudo pode mudar. Afinal, acrescente à receita mazelas existenciais + exposição sexual + embriaguez aplaudida o ingrediente investigação policial. Sexo, drogas e violência em horário nobre, travestido de “show”. De que o BBBrasil precisa mais?

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 18 de janeiro de 2012]

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4 responses to this post.

  1. Muito bom Henrique, ainda que esta publicação não alcance o público na sua totalidade, compartilharei para que alcance meu rol de amizades, afim de reavaliarmos nossas preferências como telespectadores! E VIVA a MORALIDADE!!!!! Abraços

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  2. Posted by Esperança on 25 de janeiro de 2012 at 10:09 am

    Talvez a única vantagem da TV – aí no Brasil e em qualquer lugar do mundo – seja justamente esta: o aparelho que a transmite (para os que o possuem!) pode ser sempre desligado. “Do outro lado da tela, com o controle nas mãos, o telespectador se deixa mergulhar no “reality”,”.
    Quem tem o controle nas mãos?!?

    Viva a vida sem TV!!!

    Responder

  3. […] “Homem atira contra filho viciado em crack que teve acesso de fúria em SP”. Em um canto de página do Jornal, pouco alardeada nos portais, a notícia vinda do interior paulista deveria causar comoção, provocar algum debate, despertar o incômodo, mas acabou sucumbida por assuntos mais ‘importantes’ ao brasileiro, como a moça que voltou do Canadá e as cenas picantes de um programa que violenta nosso intelecto. […]

    Responder

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