Escola como banco, professor como moeda

Henrique França
@RiqueFranca

Vinte anos se passaram para que pesquisadores norte-americanos chegassem a uma conclusão óbvia, desconcertante e, ainda assim, alardeada na terra brasillis: a de que bons professores causam impacto além das notas e influenciam diretamente no futuro profissional dos alunos. Para chegar a essa conclusão mais que ululante, cientistas das universidades de Columbia e Harvard acompanharam 2,5 milhões de alunos ao longo de duas décadas. E concluíram, bem ao estilo american way of life: o estudante acompanhado por um ótimo professor durante um ano ganha, ao longo da carreira, cerca de R$ 90 mil a mais do que aquele ensinado por docentes ruins. A reportagem, aqui no Brasil, ainda fecha as contas: “Em uma sala de 28 alunos, isso significa uma renda extra equivalente a R$ 2,5 milhões”.

Impressiona como os americanos do lado de cima do Equador encaixotam a educação, como se a escola fosse uma instituição bancária e o professor uma linha de investimento, uma ação na bolsa. Quanto vale a educação, o docente, o ensino de qualidade? Os estudiosos de Columbia e Harvard “responderam” a questão: valem o quanto podem render em cifras. Assim, por essa lógica, ganha mais quem gera mais lucros. Vale salientar que a reportagem tupiniquim não esclarece, em momento algum, quais os critérios que definem professores “bons” e “ruins”. Com a pesquisa, porém, a lógica capitalista chega aonde sempre quer: finanças. Boa educação é aquela que gera mais dinheiro.

Aplicada ao Brasil, a “descoberta” de lá pode se exacerbar a perversão de cá. Afinal, por aqui, ‘bons professores’ são cada vez mais aqueles que aprovam estudantes – mesmo sem merecimento – e apresentam índices de aprovação em vestibulares, exames diversos, concursos e afins. O sistema educacional tem se tornado uma máquina de enlatar concurseiros bem sucedidos. Como? Dicas, simulados dissimulados, e não raro situações que levam escolas para as Delegacias de Polícia, como no caso em que questões do Enem foram disponibilizadas para alunos de uma escola em Fortaleza. Reflexões, aprofundamento nos estudos, visão mundo? Isso não gera dividendos pecuniários.

Na lógica produtivista do Ministério da Educação, quanto mais alunos “bem sucedidos” (leia-se aprovados em nota), mais possibilidade de recursos, projetos e afins. Muitas reprovações podem significar baixa qualidade no ensino (professores “ruins”?), mesmo que a escola ofereça condições estruturais mínimas, esteja instalada junto a bocas de fumo, seja alvo de vandalismos e apresenta altos índices de gravidez entre alunas e criminalidade entre os alunos. Assim, esse arremedo de escola deverá receber cada vez menos verbas e atenção. Acaba se tornando motivo de vergonha para os índices, especialmente se seus estudantes forem vistos como um péssimo investimento econômico. E que os do norte não nos ouçam, mas do lado de baixo do Equador os professores são detentores dos piores salários registrados.

Desde o surgimento das sociedades modernas, a figura do professor tem influenciado diretamente os rumos das gerações. Não é preciso ser de Harvard para entender que todo e qualquer médico, advogado, maquinista, policial, empresário, político, banqueiro ou bancário contou com a contribuição de um docente em sua trajetória profissional, intelectual, pessoal e crítica. Mas é preciso ser muito norte-americano para fazer uma ligação tão estreita e perigosa entre o fluxo bancário e o valor do saber, do conhecimento. E, acima de tudo, tem que ser muito brasileiro para aplaudir uma lógica doentia voltada somente ao lucro, a ganância e a competitividade na Educação.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 25 de janeiro de 2012]

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4 responses to this post.

  1. Posted by Philipe Cavalcanti on 25 de janeiro de 2012 at 2:51 pm

    Olá, Prof. Henrique… Concordo com suas palavras, mais um ótimo texto.

    Os indicadores de “produtividade”, “aprendizado” utilizados nas escolas (e ainda em algumas Universidades) realmente são arcaicos, nunca achei que a relação nota = aprendizado fosse um bom indicador. Visto isso, na verdade, na própria graduação, onde, não raro, colegas de instituição praticamente enlouquecem ao não “renderem” o esperado, mas o que realmente não se vê tanto é a preocupação no aprendizado daquilo que, em breve, será a profissão de cada um. O que mais vale hoje é uma posição em uma das demasiadas listas de concursos públicos. Claro que há importantes exceções, assim como conheço vários. Mas espero, de verdade, à esses que não fizeram valer o aprendizado ao estarem no mercado de trabalho saibam o que fazem, pois é isso que o país está precisando, de pessoas que pensem sobre o que estão fazendo e não de simples “máquinas” de respostas vinculadas.

    Ou seja, os valores escolares tem que mudar, bem como nas universidades. Ou será que as mentalidades tem que mudar? O sistema de ensino? Não sei, só que alguma coisa tem que ser feita e rápido.

    Abração, professor! Parabéns pelo texto.

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  2. Posted by Gustavo Freire on 25 de janeiro de 2012 at 6:10 pm

    Caríssimo Henrique,
    você está sempre trazendo temas interessantes para discussão e reflexão. O de hoje nos permite trilhar vários caminhos, mas temos que fazer escolhas, principalmente quando escrevemos no ciberespaço. Assim irei tecer um comentário abordando o papel do professor na sociedade contemporânea, a partir de minha experiência como docente nos cursos de Arquivologia e Biblioteconomia na UFPB.
    Os dois cursos citados têm uma dimensão técnica inegável (antes de ser vista como algo negativo, deve ser observada como uma característica de área do conhecimento), o que nos leva a dois desafios enquanto docente:
    O primeiro é disponibilizar para os alunos as informações necessárias (conteúdos) para que possam atuar no cada vez mais competitivo mercado da informação. Assim, as chamadas “disciplinas técnicas” são fundamentais.
    O segundo é fazer com que esses alunos pensem/reflitam acerca dessas técnicas, ou seja, façam uma reflexão sobre a sua prática profissional e seu papel na sociedade. Aqui, entram disciplinas que podem contribuir para a construção desse pensamento crítico/reflexivo, que abordem a ética, responsabilidade social do profissional da informação, os fundamentos da ciência da informação ( a qual leciono nos dois cursos acima citados e também na Pós-Graduação).
    Esse é um caminho para fugirmos desse modelo produtivista de ensino e não formarmos , como disse muito bem Phillipe, “máquinas de respostas” , mas sim sujeitos que possam agir de maneira consciente na sociedade do aprendizado contínuo. Ver artigo “trabalho de informação na sociedade do aprendizado contínuo” http://www.ies.ufpb.br/ojs2/index.php/ies/issue/view/88

    Um grande abraço.

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  3. Posted by Simão on 28 de janeiro de 2012 at 5:23 pm

    Esse enaltecimento que se faz desses “estudos” aqui no Brasil só mostra o quão rápido estamos caminhando no sentido de uma educação opressora, que não liberta e sim prende a fórmulas prontas de como ganhar mais dinheiro.

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  4. Posted by Pianista on 16 de fevereiro de 2012 at 12:30 am

    Mais um texto maravilhoso! Eu vi a tal reportagem e nem me dei conta desse tipo de reflexão que você fez. Agora, uma coisa é certa, os professores não apenas merecem, mas precisam ser mais valorizados em nosso país. Diferente das estatísticas deste estudo, eu tive professores na minha infância, adolescência e na época universitária que muito me influenciaram e, aliás, influenciam até hoje, porém, há brasileiros mil vezes menos instruídos e que são mil vezes mais ricos do que eu.

    Para mim, meus maiores mestres foram minha professora da alfabetização; a da primeira série do primário que dizia que eu ia ser escritora e me incentivou bastante nas redações e no Português, esta que também foi minha professora na quarta série (até hoje as palavras dela me influenciam); meus professores de Geografia e História do 3º ano do Ensino Médio e você, como meu professor universitário. Foi por causa da sua conduta como jornalista e como professor que me fez amar mais o jornalismo e insistir nele, estando eu apenas no segundo semestre do curso. Vocês me instruíram e me fizeram ser uma pessoa melhor na sociedade, tanto como estudante quanto como gente. Vocês me incentivaram e incentivam até hoje – mesmo quando só nas lembranças – a observar o mundo por outros ângulos, a questionar e a ser, simplesmente, um ser humano melhor e mais ativo neste planeta.

    Ainda assim, não sou a mais rica jornalista do mundo, e muita gente ao meu redor que não lê um livro sequer por ano tem muito mais dinheiro que eu. No entanto, certas coisas eles não têm: o desapego ao sistema econômico, a visão sobre a vida como uma obra de arte, nem tampouco uma cosmovisão a respeito desta vida além das fronteiras financeiras. Pobre deles…

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