O abuso travestido de direito

Henrique França
@RiqueFranca

Quando criança, aprendemos um princípio básico que, se aplicado com o mínimo de sensatez, pode tornar sem uso boa parte das excessivas leis que nos cercam como carcereiros prontos a admoestar quem ultrapassar o limite da Letra Legal: “o meu direito termina onde começa o do outro”. Porém, crescemos, esquecemos e confundimos lutar por direitos com impor nossos abusos. O caso polêmico protagonizado pelo cartunista Laerte se encaixa nessa confusão de valores.
Laerte veste-se de mulher há mais de um ano. Saia, vestido, maquiagem, salto alto, cabelos longos, lá estava ele em um restaurante quando decidiu usar o banheiro feminino. No interior do toalete estavam uma senhora e uma criança de dez anos, que se sentiram constrangidas. Reclamaram ao dono do estabelecimento, que pediu ao cartunista que usasse o banheiro masculino. Criou-se a celeuma, que foi parar na Secretaria de Justiça de São Paulo. O dono do restaurante praticamente pediu perdão a Laerte; a senhora e a criança que encontraram o cartunista no banheiro feminino devem estar em casa se perguntando o que houve com o mundo.
Longe de um discurso moralista – acusação fácil e pueril -, o que se coloca aqui é a confusão que começa na cabeça do próprio requerente ao uso do banheiro destinado a pessoas do sexo oposto ao seu. Em nenhum lugar do mundo banheiro é local destinado a quem opta por ter relações homossexuais ou se considera ‘ele’ ou ‘ela’. Essa é uma questão de foro íntimo e assim deveria permanecer. Toda criança sabe que banheiro é local de ‘necessidades fisiológicas’, ligada ao funcionamento do corpo, não ao que se faz com ele. O corpo de Laerte é masculino. Se ele o torna feminino significa que devemos respeitá-lo como tal, mas ninguém é obrigado a aceitar suas vontades.
Especialmente no caso de Laerte, onde essas vontades são ainda mais confusas. Ele próprio se diz bissexual e afirma usar banheiros masculinos ou femininos de acordo com a situação, o clima, o bel prazer. Dessa forma, qualquer pessoa – travestida ou não – pode alegar o mesmo: “hoje estou com vontade de ser mulher” e pronto, o mundo me entenda. Quem haverá de julgar que o marmanjo, fisicamente masculino, não é tão mulher quanto a menina de dez anos ao seu lado?
Famoso, queridinho da grande mídia, rico e poderoso, Laerte parece ideal para empunhar a bandeira contra a homofobia. Mas, que homofobia? Alguém parou para pensar que meninas de 10 anos talvez tenham medo simplesmente de homens vestidos de mulher em um banheiro feminino? Nesse sentido, muitos homossexuais não estão preparados para lidar com sua própria condição. É preciso ser respeitado e dar-se o respeito. Assim como em qualquer agrupamento social, há gays, lésbicas, travestis e afins sensatos, respeitosos, tranqüilos, assim como há bandidos, desonestos, mentirosos, dissimulados e maníacos. Vale lembrar aqui, para quem acha que a homossexualidade torna alguém menos violento, o caso de um casal gay que violentou uma criança de nove anos e provocou o aborto nela (aqui, outro caso semelhante). Por que qualquer pessoa haveria de aceitar um homem travestido de mulher usando o mesmo espaço íntimo compartilhado por seus filhos, crianças?
Homossexuais não são monstros, nem santos. São humanos e, como humanos, precisam entender seus limites – e esse termina onde começa o do outro, lembram? O direito de Laerte ou qualquer outro travesti aderir a roupas femininas é genuíno. Daí a querer que outros o reverenciem ou se calem diante de abusos como o de querer adentrar em locais destinados a pessoas de um determinado sexo de acordo com a vontade do dia é abuso travestido.

 

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 1º de fevereiro de 2012]

Anúncios

4 responses to this post.

  1. Vejo da mesma forma que você. E esse artigo, para mim, se resume a alguns trechos específicos. O fato de estarmos no século XXI não quer dizer que não tenhamos limites – do contrário, iria por terra a instituição social e seus valores, costumes, moral. A Constituição garante a segurança da intimidade. Por fim, loucos se acham reis de países fictícios, mas não quer dizer que o são e que precisam ser tratados como tal.

    Responder

  2. Posted by Philipe Cavalcanti on 3 de fevereiro de 2012 at 1:45 am

    “Homossexuais não são monstros, nem santos. São humanos e, como humanos, precisam entender seus limites – e esse termina onde começa o do outro”. Essa frase diz bem o que deve ser feito: cada um entender seus limites. Diante disso, não há motivos para conflitos quaisquer que sejam.

    Infelizmente ainda vivemos em um país em que as pessoas não conhecem seus direitos e deveres como cidadãos.

    Ótimo texto, professor… Muito boa discussão, parabéns.

    Responder

  3. Posted by Walquíria on 3 de fevereiro de 2012 at 11:32 am

    Como o senhor mesmo cita é um” abuso travestido de direito”,para analisar estou me colocando no lugar dessa senhora que estava com a filha no banheiro feminino do restaurante,uma situação no mímimo constrangedora.Não sou homofóbica,na minha família tem gays muito dígnos e tenho amigos gays extremamente respeitosos.
    Parabéns pelo texto professor!

    Responder

  4. Posted by Pianista on 15 de fevereiro de 2012 at 11:25 pm

    Eu vi o caso e fiquei chocada. O dono do restaurante ter que pedir perdão????

    Acho que a partir deste caso deveria estar escrito assim nas portas dos banheiros: “Com pinto” e “sem pinto”. Pronto, resolve-se o problema.

    Responder

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: