Carnaval, drogas e chatices

Henrique França
@RiqueFranca

“Homem atira contra filho viciado em crack que teve acesso de fúria em SP”. Em um canto de página do Jornal, pouco alardeada nos portais, a notícia vinda do interior paulista deveria causar comoção, provocar algum debate, despertar o incômodo, mas acabou sucumbida por assuntos mais ‘importantes’ ao brasileiro, como a moça que voltou do Canadá e as cenas picantes de um programa que violenta nosso intelecto.

O aposentado que atirou cinco vezes contra o filho de 27 anos quando o rapaz destruía a casa da família foi preso em flagrante. Mas o cárcere doloroso do pai pode ser ampliado para muitas outras famílias brasileiras, com a proximidade da ‘liberdade alienada’ que o Carnaval traz.

Sim, a chamada festa do povo tem suas ‘liberdades’. Embriaguez? É Carnaval! Sexo inconseqüente? É Carnaval! Drogas lícitas e ilícitas? “Só não usa quem já morreu”. Isso sem falar no véu que cobre os olhos de uma nação chafurdada em corrupção, insegurança, ausência de serviços básicos de saúde e respeito. Mas, qual? É Carnaval!

O crack já atingiu cerca 1,2 milhão de jovens brasileiros, recebe 1,3% do Produto Interno Bruto (PIB) em combate e tratamento da droga e 30% de seus usuários morrem antes de completar cinco anos de uso. É mais que o índice de óbitos por doenças graves como a leucemia, por exemplo. E, não precisa ser especialista para saber, o Carnaval é um dos períodos de maior fluxo de drogas no Brasil – inclusive momento da adesão de novos usuários.

Apesar disso, a postura de reflexão acerca dos festejos momescos é tratada como careta, retrógrada, moralista e chata. E aí se instaura a tal “liberdade alienada”, tão falsa quanto a sensação de invulnerabilidade de muitos foliões. Carnaval é festa bonita, colorida, alegre e pulsante, sem dúvida. Milhares de brasileiros, porém, parecem acrescentar sentimentos de insatisfação, impotência e extravasamento a essa cesta de adjetivos e acabam se tornando não livres, mas encarcerados pela cólera coletiva do Momo.

Até para aqueles que curtem o Carnaval com responsabilidade, alegria e respeito essas palavras precisam ecoar. Porque ninguém faz folia sozinho – e quem acha que está imune aos efeitos dessa alienação regada a corpos nus e almas vestidas de vazio também é prisioneiro. Prisioneiro da ignorância.

Enquanto traficantes se preparam para aquecer as vendas e conquistar novos “clientes”, o que temos a fazer é começar a mudar os nossos carnavais de dentro para fora. De casa para a rua. Do “não”, quando necessário, diante do “sim” que ‘todo mundo diz’. Porque continuar achando que no Carnaval tudo pode é ter a certeza de que podemos perder tudo: o domínio sobre o corpo, o respeito ao outro, o faro para aproveitadores, o limite do aceitável, a vida.

As campanhas sobre o uso “moderado” de drogas lícitas no Carnaval já começaram. Os alertas sobre aquelas não liberadas também. Boa parte delas vai receber um bom destaque da mídia, ao contrário de notícias como a do pai que atirou contra o próprio filho, viciado e fora de controle, vítima do crack.

Talvez outdoors e jingles divertidos não surtam o efeito desejado junto a foliões, especialmente os mais jovens – pelo menos não se comparados a uma boa base de diálogo, esclarecimentos e limites do lar para a avenida. Porque careta é não falar abertamente sobre os riscos de se drogar, retrógrado é manter-se como um neandertal ignorante em tempos de tanta informação, moralista é subir no palanque para fazer coro e agradar a multidão e chato, gente, é perder a verdadeira liberdade de curtir a vida para muito além de uma quarta-feira de cinzas.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 4 de fevereiro de 2012]

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6 responses to this post.

  1. Posted by Gustavo on 4 de fevereiro de 2012 at 11:50 pm

    Carnaval é legal. Droga e violência que não é. E com certeza as pessoas que se drogam, se travestem, brigam, praticam orgias durante 5 dias não são as principais responsáveis pelas mazelas que assolam o nosso país. Se a gente tivesse somente 5 dias de caos este país seria uma maravilha. A responsabilidade e culpa é das pessoas que se destroem umas as outras durante um carnaval e outro.

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  2. Posted by Juliana Marques on 7 de fevereiro de 2012 at 10:09 am

    Realmente Henrique, eu ainda não tenho filhos mas penso muito nisso, nesses momentos em que parece que tudo é permitido, utilizando uma falsa alegria e diversão como pano de fundo para que o sujeito entre nesse caminho que muitas vezes não tem volta. Parece careta falar assim mas é a realidade. Não bebo, nem uso droga de espécie alguma e consigo me divertir numa boa, danço, canto, me fantasio, brinco, consigo ser feliz sem nenhum escudo ou ferramenta auxiliar, sendo simplesmente eu mesma, e o melhor, acordo sem ressaca no dia posterior à festa.

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  3. Perfeito! Parabéns Henrique!

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  4. Ótima reflexão, Henrique.
    O mais triste é que entra ano e sai ano e tudo continua exatamente igual. Aliás, igual não, pior.
    Uma pena!

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  5. Parabéns pela matéria Henrique, retrata exatamente o que acontece, é uma festa em que a carne aflora, em função das bebidas ingeridas, que tira a razão, e leva a homens e mulheres, mais liberados, a cometer delírios e fantasias na festa em quem reina e momo.
    O desrespeito aflora, a droga lícita reina, e as ilícitas são usadas cada vez em maior escala, que culmina com a degradação da família, destruição de relacionamentos, que seriam para toda a vida, por conta da libertinagem que se torna latente.
    Eu não participo, e quanto puder, procurarei incutir na mente de meus filhos, a não se envolverem com esse reino de devassidão e luxúria.

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  6. Posted by Pianista on 15 de fevereiro de 2012 at 10:57 pm

    Que texto perfeito! Lembrei do desabafo de Rachel Sheherazade na TV Tambaú. Enquanto ela destacava o índice de violência e uso de ambulâncias durante o Carnaval em contraste com a miséria do Estado e falta de atendimento médico adequado em dias comuns, você nos lembra do uso de entorpecentes deliberado nestes dias de “festa” e salienta a sandice da propaganda carnavalesca que diz que “tudo é permitido”, mas com moderação…

    Se as pessoas pegarem seu texto e lembrarem do texto de Rachel, vão pedir para ser vetado o Carnaval no Brasil! Porque, de fato, é uma festividade desnecessária, imunda, hipócrita, violenta e, ainda por cima, favorece a proliferação de doenças sexualmente transmissíveis, aumenta o consumo de álcool e drogas, além de, em todas as vezes, ocorrerem casos de famílias infelizes na quarta-feira de cinzas por ter perdido algum parente nas mãos de algum “folião”, ou por ter começado a perdê-lo para o crack.

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