Tempos modernos demais

Henrique França
@RiqueFranca

 

Charles Chaplin já nos fazia rir e refletir, em meados da década de 1930, com seu filme Tempos Modernos. A “máquina” não pode parar, mesmo que para isso pessoas tenham que ser sacrificadas, desrespeitadas, aviltadas em sua particularidade humana. A fábrica onde o personagem de olhar miúdo trabalha está projetada hoje, cerca de 70 anos depois, para além das quatro paredes de uma indústria. A produção em massa, para nossa infelicidade, também atingiu o intelecto. Grosso modo, somos de forma generalista parte de uma sociedade que pensa igual, age igual, aceita igual. E quem pensar fora dessa engrenagem corre o risco de ser “demitido socialmente” da fábrica de idéias enlatadas.
Não há como mensurar, por exemplo, como fica o coração de uma família que acabara de perder um ente querido para as drogas, a violência gratuita, a guerra do trânsito, a intolerância, o preconceito, ao assistir sua história projetada na mídia – mais especificamente em rede de TV. Difícil controlar o conflito emocional quando os 30 segundos de reportagem sobre a violência são prontamente seguidos por material festivo, não raro sobre um assunto fútil e que mais parece querer desviar o foco do que antes poderia despertar alguma reflexão. Que sensação é essa de ter a dor massacrada pelas gargalhadas de uma nova celebridade ou de fotos indiscretas divulgadas na Internet?
Nos tempos modernos da era digital, a velocidade da informação parece querer nos confundir a todos – até mesmo aos produtores dessa mesma massa informacional. Não há pausas – e não pode haver – para a mínima oxigenação de idéias, do pensar em como tratar o assunto há pouco abordado, digerir os números da corrupção, as propostas de mais punição, os desvios de verbas da educação, o massacre popular, os crimes ambientais e o silêncio das autoridades diante de questões em que a sociedade exigiria resposta se pudesse ao menos parar e pensar um pouco. Não há tempo para o pensamento crítico diante da TV.
Evidentemente, o mundo não gira em torno apenas de desgraças, assim com nem todo operário fabril é igual. Acontece que, da mesma forma com que Chaplin expõe a padronização dos gestos, das ações e reações dos homens que trabalham a seu lado, na esteira da fábrica, o bombardeio de notícias em mesmo tom, dentro do mesmo minuto, no mesmo programa, com se tudo fosse a temática “mundo”, ficamos expostos sem saber ao risco de não perceber a diferença entre a notícia que merece mais tempo de reflexão e aquela descartável, entretenimento pueril.
A indignação sobre a morte dezenas de bebês por negligência médica não mereceria mais aprofundamento e tempo do que o curioso colecionador de carros antigos? O brutal estupro coletivo seguido de mortes de mulheres pode ser equiparado a um momento carnavalesco? São as contradições da vida, diriam alguns. E de fato são. O alerta é que, entre contradições e equiparações há uma linha tênue. E isso tem sido repetido de forma individualista, talvez um reflexo da alienação coletiva diante da mídia. Compare, por exemplo, as mensagens espalhadas como memes nas redes sociais: quantas carregam bons ideais (não confunda com idéias engraçadas), motivos que de fato justifiquem o ‘compartilhar’, o memorizar e o aprender?
É certo que a “fábrica” e sua produção em massa seguirão em ritmo acelerado. O grande desafio desses tempos modernos, porém, talvez seja olhar para além da engrenagem, desacelerar e descobrir que lá fora há muito mais coisas e cores pelas quais vale a pena produzir e viver – detalhe que o adorável palhaço de terno, cartola e bengala, mesmo em preto e branco, descobriu.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 15 de fevereiro de 2012]

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5 responses to this post.

  1. Henrique… tenho tambem esse raciocínio sempre que vejo essa “mistura” de assuntos num telejornal e sempre acho a mesma coisa. Falta de respeito com os envolvidos na matéria.
    E, as vezes, sinto uma falta de sensibilidade da galera de edição/produção desses teles…
    Vá entender!

    Responder

  2. Posted by Walquiria on 16 de fevereiro de 2012 at 12:47 pm

    Já havia observado,as expressões dos apresentadores jornalísticos,como conseguem mudar em segundos de uma matéria para outra.

    Responder

  3. Triste realidade.

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  4. Posted by Jailma Simone on 16 de fevereiro de 2012 at 2:06 pm

    Rique parabéns pela reflexão. É deprimente a salada de desinformação estampada na TV, principamente meio dia. É grave, mas a massa degusta. Fazer o que?

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  5. […] Sobre Henrique França « Tempos modernos demais […]

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