O relato de uma dor

Henrique França
@RiqueFranca

            “Escrever dói.” A expressão, dita pelo escritor João Ubaldo Ribeiro, ocupou este mesmo espaço, há algum tempo e em contexto bem diferente. Esta semana, a dor exposta textualmente foi além do ofício e somou-se ao grito abafado de alguém que leu e encontrou, aqui, campo para um desabafo sincero, indignado e desesperado quanto aos caminhos que temos trilhado, enquanto sociedade, rumo à desvalorização da vida.

Via e-mail, as palavras enviadas transbordaram como se alguém precisasse gritar e chorar sem que isso lhe fosse permitido. Mulher, mãe, filha, ser humano, essa pessoa não se derramou em elogios, congratulações ou reclamações, mas em dor e em lágrimas que poucos terão oportunidade de compartilhar, mas muitos poderão facilmente entender. Impactante, a mensagem não foi enviada para ser avaliada gramática ou estilisticamente, mas nos faz parar e pensar sobre decisões e abstenções tomadas como homens e mulheres ditos “inteligentes”, “racionais” e dotados de vida.

Ratificando, suas palavras não vieram buscar publicidade, mas tomei a liberdade e pedi autorização para reproduzi-las, na íntegra, preservando a autoria e sem correções de ordem estética. Porque não há estética que se sobreponha à dor que palavra alguma alcança, nem curiosidade que não se esvaia diante da possibilidade de também sermos vítimas de relatos como este, à espera de uma palavra – escrita, dita ou visualizada – que traga algum conforto, que nos renove a esperança em dias melhores. Segue o relato:

“Até que enfim, encontrei eco para minha indignação, perplexidade… tinha que falar isso antes de me apresentar. Sou ser humano, mulher, filha, neta, mãe, viúva (não gosto deste estado, mas é o civil e servil à legalidade, às vezes injusta) amiga, todas elas pautadas na dignidade, respeito e solidariedade a todo. Devo ter alguns desafetos e gostaria muito de transformá-los em afetos. Mas, voltando ao foco… domingo (saída do bloco das Virgens), segunda (saída das Muriçoquinhas – nossas crianças, ai meu Deus) e nesse dia eu chorei e gritei, um grito surdo, olhei para meus filhos, estavam dormindo; chorei pelo assassinato do meu colega de trabalho Bruno; chorei pelas minhas companheiras estupradas e mortas; chorei por dois jovens que saiam de casa em pleno começo de tarde de um domingo, um deles estudante do curso de Música da UFPB e esse foi gravemente alvejado por disparos de pistola por um coronel da polícia, que achou que poderiam ser assaltantes – ele achoooooooooou; chorei por meu filho que desde agosto do ano passado não sai de casa, como se já não bastasse as limitações que um apartamento oferece, está encarcerado no quarto, vítima de uma brutal abordagem policial onde foram disparados oito tiros, e aí passei a acreditar em milagres, ele saiu correndo em zigue-zague, relato dele e de um anjo que o salvou quando ele já cansado de tanto correr conseguiu esconder-se, mesmo assim foi encontrado e espancado, humilhado, estupidamente e não foi morto graças a intervenção dessa pessoa que pediu para não atirarem, amedrontado não sai mais de casa, abandonou os dois cursos superiores; chorei pelo pavor do meu filho, por mim, por já não saber mais o que fazer. Só sei que há tanto riso, quanta alegria, milhões de palhaços nas ruas e eu, nós, todos que são vítimas da violência consentida, somos os Arlequins que choramos pelo amor perdido pelo ser humano. Mas voltemos a vida real, é CARNAVAL, brinquemos escondendo a dor.”

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 18 de fevereiro de 2012]

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One response to this post.

  1. Posted by Ana Queila Rêgo de Oliveira on 19 de fevereiro de 2012 at 7:00 pm

    Acredito que o relato, por sí só, diz tudo. Fiquei impressionada com a stuação desse jovem, tão traumatizado, ficar enclausurado em casa… meu Deus… misericórdiaaaaa…

    Abraço

    Responder

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