Archive for março \28\UTC 2012

A difícil arte do exemplo

Henrique França
@RiqueFranca

Há uma frase centenária do músico e teólogo Albert Schweitzer que vem sendo publicada em livros escolares e usada em reuniões motivacionais, mas ainda carente de uso, na prática: “dar o exemplo”, ele escreveu, “não é a melhor maneira de influenciar os outros. É a única.” A unicidade da proposta, fundamental no processo de construção social ordeira, é certamente um dos maiores desafios para educadores, pais e líderes em geral. Até descobrirmos a responsabilidade de ensinar, educar, preparar alguém para a vida, a autocobrança do exemplo pode ficar para depois. Porém, tornar-se exemplo chega com urgência quando embalamos um bebê no colo, ou adentramos em sala de aula, ou nos propomos a liderar (e não chefiar, mandar em) outras pessoas.

Nesse aspecto, o exemplo proposto por Schweitzer difere de outro tipo de conduta considerada exemplar para muitos: a punição. Na Idade Média, enforcar criminosos, guilhotinar traidores do poder ou empalar seres “indignos” – inclusive escravos e índios – eram ações tomadas como exemplo. Algo como ‘que sirva para que outros não façam o mesmo’. Nessa perspectiva, invoca-se um dos mais indignos e covardes ditados populares, que também vem influenciando gerações: “faça o que eu digo, não faça o que eu faço”.

Na dicotomia entre tornar-se exemplo e dar o exemplo como punição – e consequentemente como ameaça coletiva –, boa parte dos gestores públicos no Brasil parecem optar pela postura do dito popular, ignorando a proposta de Schweitzer. Fazem-se as leis, eivadas de punições, limites e alertas. A quem cabe o cumprimento, para que a ordem seja mantida, senão a todos? Porém, o que se vê com extrema frequência é que as regras do jogo social brasileiro têm sido feitas para os outros, no sistema “faça o que eu digo, não o que faço”.

Vale como exemplo uma ação pueril, pequena, mas bastante ilustrativa. No trânsito, sinalizações e limites são transgredidos, não raro, por agentes e veículos com adesivos de administrações públicas, placas brancas, pinturas que identificam seu caráter de autoridade e que, por isso mesmo, deveriam “ser” exemplo. Mas, não! O carro da prefeitura, seja ela qual for, cruza as avenidas muito acima da velocidade; as patrulhas da polícia avançam semáforos vermelhos sem qualquer anúncio de emergência em suas sirenes; as picapes com logomarcas oficiais se apoderam das calçadas, impedem o pedestre de caminhar, contrariam a própria lei.

Há uma desordenação em quem prega a ordem. Se estabelecimentos comerciais precisam de regras para funcionar, de segurança estrutural adequada, de espaço destinado a veículos e pedestres, por que há tantas liberações de alvarás para estabelecimentos fora dos padrões de organização legal? Por que, por mais idiota que possa parecer a questão, permite-se que um poste seja fincado no meio de uma calçada já bastante estreita, inviabilizando uma caminhada tranqüila, segura, sem falarmos na tão demagogicamente badalada acessibilidade a cadeirantes?

Precisamos inserir nas cartilhas oficiais, nas entrelinhas dos códigos de conduta, nas leis e suas punições a proposta de Schweitzer, e não o ditado popular tão acovardado. Talvez assim, a partir do exemplo dos veículos oficiais em respeito aos limites de velocidade, ao pedestre, ou da implantação de equipamentos em locais adequados, que não ‘roubam’ o espaço público, tenhamos uma sociedade exemplar. Até porque o discurso “faça o que digo e não o que faço” caiu no descrédito há tempos. E a Idade Média já nos deixou o exemplo de como não agir.

 

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 24 de março de 2012]

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No ringue da fé

Henrique França
@RiqueFranca

Uma imagem corre a Internet expondo quatro personalidades brasileiras, líderes religiosos, que vêm sendo expostos na mídia mais por investigações fiscais ou policiais do que pelas palavras de conforto espiritual e amor cristão que deveriam proferir. Na montagem compartilhada nas redes sociais, Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago (o apóstolo) e RR Soares são apresentados como lutadores de vale-tudo, prontos para a denominada “Batalha Televangelista”. Escárnio para uns, vergonha para outros, o Brasil tem sido foco de corporações travestidas de religiosidade. Tem sido golpeado, como classificou o próprio Cristo, por falsos profetas.

Nos últimos dias, um levantamento jornalístico expôs, em rede nacional, evidências de enriquecimento exorbitante atrelado a inadimplência da Igreja Mundial do Poder de Deus e seu mentor, chamado apóstolo Valdemiro Santiago. Diante da aquisição de 26 mil hectares e investimento de aproximadamente R$ 50 milhões em dinheiro vivo, o contraponto de imóveis alugados pela denominação e não pagos, inadimplência pequena diante de tamanho patrimônio “apostólico”.

O mais interessante, para não dizer irônico, é que a reportagem, apesar de coerente e importante como denúncia, foi idealizada e produzida na emissora do ex-parceiro de sacerdócio e agora arqui-religioso-inimigo Edir Macedo, que já teve sua vida devassada por reportagens no Brasil e além fronteiras e foi inclusive preso sob acusações de charlatanismo, curandeirismo e envolvimento com o tráfico de droga.

Além dessas estrelas da telerreligiosidade, há outros líderes menos “famosos” e não menos vergonhosos para quem acredita, respeita e faz da busca pelo religare um objetivo do bem, para o bem. Exemplo disso é Aldo Bertoni, tido como profeta que realiza cultos em locais vigiados, possui armas registradas em seu nome e é acusado de abusar sexualmente de mulheres fiéis da seita criada pelo autodenominado “divino”.

Não coincidentemente, a malandragem baseada na cristandade tem ganhado adeptos em todos os segmentos, inclusive – como não poderia deixar de ser – no universo politiqueiro do Brasil. Não seria exagero dizer que se Cristo ainda andasse por essas paragens trataria o Congresso Nacional e os estúdios de TV como tratou os mercadores que buscavam lucro dentro do templo. Quem conhece a essência da palavra dEle tem a certeza de que o País não precisa de um “show da fé” ou de uma “bancada evangélica”, mas sim de cristãos verdadeiros, vivendo como cristãos genuínos na escola, na repartição, nas estradas, nas empresas de comunicação e nos parlamentos.

Cristo nunca ostentou sequer seus milagres, quiçá buscou riquezas materiais, posses ou mesmo uma vestimenta melhor, a melhor. O melhor dEle tem sido o pior apresentado diante das câmeras de TV. A fé é algo que não cabe em livros, CDs, DVDs, grandes filmagens ou projetos de lei. Os mandamentos de Jesus, para ficarmos no âmbito dos cristãos, não se deixam informar em homens de paletó e fala mansa, pausada, de retórica pasteurizada. A verdadeira igreja deveria usar templos apenas para a comunhão e não para a usurpação, a ostentação e a exploração de quem pretende ser fiel a Ele e nunca a pseudo-apóstolos e mediadores do céu. As “celebridades do divino” continuarão se enfrentando por índices de audiências, lutando por mais milagres e brigando por mais enriquecimento – tentando arrancar sangue de quem já deixou a cruz há muito tempo.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 21 de março de 2012]

As novas “fobópoles” brasileiras

Henrique França
@RiqueFranca

“Fobópole” é um neologismo criado pelo escritor e geógrafo brasileiro Marcelo Lopes de Souza, a partir de duas palavras gregas – phóbos, que significa medo, e pólis, cidade. No artigo “Clima de guerra civil?”, publicado em 2005 no livro “Que País é esse?”, organizado por Edu Silvestre de Albuquerque, Souza classifica as “cidades do medo” como grandes municípios, “antes símbolo da civilização, de passeios ao ar livre” e que onde, cada vez mais, “o mais sensato parece ser ficar em casa, na segurança (cada vez mais relativa) do lar”. Ao longo de 40 páginas, Marcelo Lopes explica os fundamentos das fobópoles, suas novas fugas, perspectivas ou não de mudanças. Mas, o que chama a atenção, seis anos depois da primeira publicação, é que as cidades do medo parecem ter ampliado seu perfil inicial. Dos movimentados centros urbanos, o medo que paira sobre as grandes pólis segue ganhando território e invadido cada vez mais os pequenos municípios, distritos, contaminando com seu veneno o campo, a vida no interior.

Não fosse assim, o que dizer, por exemplo, sobre o caso de um estupro coletivo seguido do assassinato de duas mulheres em Queimadas, cidadezinha do interior da Paraíba com aproximadamente 40 mil habitantes e que agora vive sob o medo de uma suposta invasão de bandidos vindos do eixo Rio-São Paulo? Ou como explicar o excesso de arrombamentos e explosões a caixas eletrônicos nas dezenas de cidades brasileiras desprovidas de forte aparato de segurança exatamente por apresentarem, até ali, uma rotina pacata? Ou como justificar que o interior dos estados brasileiros tenha se tornado rota oficial de traficantes de armas e drogas, além de foco de prostituição infanto-juvenil – ações não raro acobertadas e integradas por homens públicos, autoridades e pessoas que detinham a confiança da população?

Os mais relativistas – ou seriam conformistas? – podem alegar que tratam-se de casos isolados. O termo, aliás, virou ‘hit’ da incompetência de gestores País afora. A criança que brinca na rua leva uma bala na cabeça em consequência de troca de tiros entre bandidos? Caso isolado. O policial fornecia armas e liberava o tráfico de drogas na comunidade? Caso isolado. E como não lembrar de um ou outro caso de pessoas queimadas nas ruas, longe das metrópoles, mas muito perto do “medo” exposto por Souza? Caso isolado, claro! O fato é que, de caso isolado a caso isolado, entramos em um estado de anestesia social impressionante. Pior: geralmente, apenas nos mobilizamos pela mudança quando o medo nos atinge diretamente – seja por um ente querido assassinado, seja pelas estatísticas de violência que rondam o nosso bairro.

Assim como as fobópoles deixaram de ser exclusividade dos grandes centros urbanos, a violência, a imprudência, o sarcasmo banditista e a falta de pudor na corrupção deixaram, há muito, de ser casos isolados. Para alguns, a coisa já se tornou regra de onde surgem máximas-chinfrins do tipo “é assim mesmo” ou “fazer o quê? Rezar para que não aconteça conosco”. Pedir proteção divina é fundamental, mas vale lembrar a máxima bíblica – essa sim, máxima – de que a fé sem obras é morta. No plano terreno – onde religiosos e ateus precisam se respeitar para sobreviver -, ainda cabe ter fé na educação, pois dela provêm nossos direcionamentos sociais. É na formação socioeducativa que está a base das cidades do amanhã. O medo tem extrapolado os limites dos grandes centros urbanos assim como a deseducação tem atravessados as paredes da sala de estar e da sala de aula. Dar com os ombros a essa questão é como classificar os absurdos de violência que nos cercam de “casos isolados”. Aos sem-ação, resta apenas o autoencarceramento e a crença comodista e vergonhosa em deuses “pagãos” – daqueles que pagam pra ver.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 17 de março de 2012]

Nosso velho desrespeito

Henrique França
@RiqueFranca

“A legislação é fria e dura. Não vai verificar quem é ou não é… se é uma senhora ou não”. A declaração, feita por um advogado especialista em Direito da Família, tenta explicar o motivo que levou uma senhora de 74 anos, aposentada com um salário mínimo, mãe de dez filhos e que sustenta um neto adolescente abandonado pelo pai a amargar 31 horas atrás das grades em uma cadeia imunda, no interior de Goiás. Uma das filhas da idosa, indignada, perguntou: “como ensinar nossas crianças a respeitar os mais velhos se nem mesmo a Justiça o faz?”. A reportagem que trouxe o caso de Dona Luzia passou, mas a pergunta ficou. Como o Brasil tem tratado seus idosos?

A resposta é tão óbvia quanto vergonhosa. Talvez o fato de a própria Justiça, que deveria resguardar a dignidade do cidadão, ter determinado a prisão da senhora de 74 anos torne a cena mais revoltante. O móvito? Dona Luzia não pagou a pensão de quatro netos (dois deles com mais de 18 anos e o mais novos, de seis anos, sequer mora com a mãe, requerente da pensão), responsabilidade que a Lei passou para ela, depois que o pai (ir)responsável pela pensão sumiu. Mas a decisão judicial, infelizmente, é uma gota no oceano de desprezo, desrespeito e ignorância do nosso trato com os que vieram antes de nós. E não precisa ir ao interior de Goiás para encontrar uma postura indiferente aos mais velhos.

Em todo o País são registradas 120 mil agressões, por ano, contra idosos. Só em João Pessoa, cidade que há algum tempo foi considerada ideal para viver após a aposentadoria, o número dessas ocorrências chega a 100 por mês, segundo o Conselho Municipal do Idoso. Os registros também engrossam os processos no Ministério Público Federal na Paraíba e nas delegacias, que já somam mais de cem casos, somente este ano. Os índices se repetem em outros Estados da Federação. Pior: a grande maioria das denúncias está relacionada à exploração de idosos por seus próprios familiares. Da violência entre quatro paredes, pela família, chegamos à violência entre processos judiciais e leis “frias e duras”, pela Justiça.

Mas o pior é perceber que não estamos, na base, mudando muito esse cenário. É comum vermos crianças – quando não nossos próprios filhos – tratarem os avós aos gritos, olhar para os idosos nas ruas pejorativamente como “os velhos”, observando de forma desprezível a estética das rugas e do corpo encurvado, lento. Quantos realmente valorizam seus avós? Quantos funcionários de idade avançada eles encontram em suas escolas? Qual o tempo de convivência com nossos velhinhos? E, quando há, como os pequenos têm sido educados a contar o ritmo frenético para não atropelar os passos e palavras lentas dos velhinhos? E nós, como nos comportamos diante dos chamados anciãos?

Dona Luzia, que passou uma madrugada na cadeia por um crime que nunca cometeu, agora fala triste, tem medo de ser encarcerada novamente – e isso pode acontecer! -, sente-se envergonhada pelo desrespeito com que foi tratada. “Foi humilhante. Depois desse dia para cá a vida, para mim, não é mais boa”. Foram essas as palavras dela, que, pelo inusitado da (in)Justiça, ganhou repercussão nacional. Mas, e quanto aos que sequer são ouvidos e continuam sendo maltratados, abusados depois de viver não raro se dedicando aos algozes de agora? Quantas vidas não são “mais boas”, já no fim da caminhada? Como estamos preparando as jovens gerações a olharem nossos velhos? E como seremos tratados, todos, quando os passos se tornarem mais lentos e pesados? Precisamos de novas respostas a velhos dilemas.

 

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 14 de março de 2012]