Nosso velho desrespeito

Henrique França
@RiqueFranca

“A legislação é fria e dura. Não vai verificar quem é ou não é… se é uma senhora ou não”. A declaração, feita por um advogado especialista em Direito da Família, tenta explicar o motivo que levou uma senhora de 74 anos, aposentada com um salário mínimo, mãe de dez filhos e que sustenta um neto adolescente abandonado pelo pai a amargar 31 horas atrás das grades em uma cadeia imunda, no interior de Goiás. Uma das filhas da idosa, indignada, perguntou: “como ensinar nossas crianças a respeitar os mais velhos se nem mesmo a Justiça o faz?”. A reportagem que trouxe o caso de Dona Luzia passou, mas a pergunta ficou. Como o Brasil tem tratado seus idosos?

A resposta é tão óbvia quanto vergonhosa. Talvez o fato de a própria Justiça, que deveria resguardar a dignidade do cidadão, ter determinado a prisão da senhora de 74 anos torne a cena mais revoltante. O móvito? Dona Luzia não pagou a pensão de quatro netos (dois deles com mais de 18 anos e o mais novos, de seis anos, sequer mora com a mãe, requerente da pensão), responsabilidade que a Lei passou para ela, depois que o pai (ir)responsável pela pensão sumiu. Mas a decisão judicial, infelizmente, é uma gota no oceano de desprezo, desrespeito e ignorância do nosso trato com os que vieram antes de nós. E não precisa ir ao interior de Goiás para encontrar uma postura indiferente aos mais velhos.

Em todo o País são registradas 120 mil agressões, por ano, contra idosos. Só em João Pessoa, cidade que há algum tempo foi considerada ideal para viver após a aposentadoria, o número dessas ocorrências chega a 100 por mês, segundo o Conselho Municipal do Idoso. Os registros também engrossam os processos no Ministério Público Federal na Paraíba e nas delegacias, que já somam mais de cem casos, somente este ano. Os índices se repetem em outros Estados da Federação. Pior: a grande maioria das denúncias está relacionada à exploração de idosos por seus próprios familiares. Da violência entre quatro paredes, pela família, chegamos à violência entre processos judiciais e leis “frias e duras”, pela Justiça.

Mas o pior é perceber que não estamos, na base, mudando muito esse cenário. É comum vermos crianças – quando não nossos próprios filhos – tratarem os avós aos gritos, olhar para os idosos nas ruas pejorativamente como “os velhos”, observando de forma desprezível a estética das rugas e do corpo encurvado, lento. Quantos realmente valorizam seus avós? Quantos funcionários de idade avançada eles encontram em suas escolas? Qual o tempo de convivência com nossos velhinhos? E, quando há, como os pequenos têm sido educados a contar o ritmo frenético para não atropelar os passos e palavras lentas dos velhinhos? E nós, como nos comportamos diante dos chamados anciãos?

Dona Luzia, que passou uma madrugada na cadeia por um crime que nunca cometeu, agora fala triste, tem medo de ser encarcerada novamente – e isso pode acontecer! -, sente-se envergonhada pelo desrespeito com que foi tratada. “Foi humilhante. Depois desse dia para cá a vida, para mim, não é mais boa”. Foram essas as palavras dela, que, pelo inusitado da (in)Justiça, ganhou repercussão nacional. Mas, e quanto aos que sequer são ouvidos e continuam sendo maltratados, abusados depois de viver não raro se dedicando aos algozes de agora? Quantas vidas não são “mais boas”, já no fim da caminhada? Como estamos preparando as jovens gerações a olharem nossos velhos? E como seremos tratados, todos, quando os passos se tornarem mais lentos e pesados? Precisamos de novas respostas a velhos dilemas.

 

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 14 de março de 2012]

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5 responses to this post.

  1. Posted by Briggida Lourenço on 14 de março de 2012 at 1:58 pm

    Nossa tenho medo, muito medo do amanhã…muitas vezes criamos os nossos filhos, acreditando, termos dado todo o amor e repassado os ensinamentos corretos e valores também, mas eles algumas vezes se tornam adultos tão diferentes do que esperávamos…

    Acredito que todos devam se HUMANIZAR, AMAR O PRÓXIMO, OLHAR para os lados, percebo que cada vez mais nos fechamos num círculo singular e não nos preocupamos com as pessoas e com o que acontece a nossa volta.

    São os gritos da vizinha pedindo socorro, são as crianças nos sinais, mulheres e homens nas calçadas, filas nos hospitais…SOLIDÃO, é a pior coisa que existe, e acredito que até nós, que corremos nesse dia a dia, trabalho, faculdade, filhos, reuniões, estamos passando por uma SOLIDÃO…

    Solidão de amar, de perceber as coisas, de ter um propósito na vida além da estabilidade financeira.

    Responder

  2. Caro e estimado irmão Henrique França, acho que o problema maior está nas pessoas, o funcionalismo incapacitado, preguiçoso, que faz a maquina estatal funcionar de uma forma desrespeitosa e inoperante, regida por pessoas desqualificadas, sem o mínimo conhecimento e uma capacitação acadêmica e que não tem a menor noção de respeito ao próximo e temor a Deus. Resulta em todos os absurdos que contemplamos nos nossos dias.
    Roberto Regis

    Responder

  3. Posted by Edu Montenegro on 14 de março de 2012 at 3:54 pm

    Parabéns Henrique! Nosso problema começou em 1500, de lá pra algumas coisas melhoraram, mas, na essência, fomos “colonizados” por bandidos, isso é consequência…

    Grande abraço!

    Edu Montenegro

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  4. Eu tenho dois filhos, um deles já praticamente adulto. Acho que por ter sido uma criança criada sempre na companhia de avós amorosos, eduquei meus filhos com a seguinte máxima: sim, seus avós merecem seu total respeito, carinho, admiração e obediência.
    Domingo presenciei uma criança de sete anos de idade gritando, insultando e ameaçando os avós, na presença de tios adultos que nada faziam além de rir e dizer “ela é assim mesmo”. QUando os pais chegaram, e o fato foi relatado, não ouvi nenhuma repreensão, nenhuma reclamação, nenhum castigo. Fiquei envergonhada pela situação alheia e tentei me meter. Tentei dizer à menina que não fizesse aquilo, e a repreendida fui eu, por me meter na criação dos filhos dos outros.
    Enfim.
    Vai ser difícil uma geração que respeite os idosos, sendo que são criado nesses moldes, que infelizmente, parece ter virado regra.

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  5. Posted by Pianista on 17 de março de 2012 at 12:12 am

    Sempre achei essa lei um absurdo completo. Os avós nada têm a ver com as burrices e irresponsabilidades dos filhos e genros/noras. Como prender uma senhora que ganha UM SALÁRIO MÍNIMO, que teve 10 filhos e benditos quatro netos adolescentes????? Como prender alguém que nunca cometeu crime nenhum???? É crime ser pobre?????????????

    Fico triste com o Brasil que desvaloriza seus senhores/as que tanto fizeram a nação crescer no passado. Fico pensando… Se hoje em dia a grande maioria dos jovens só dá valor a aparências, à estética da moda, como irão dar valor àqueles que já não estão mais com a maldita estética da moda do século XXI? Meus avós não têm mais a pele lisa, não têm a força de outrora, nem a memória que eu tenho e temo por eles, temo que jovens estúpidos os tratem mal.

    Semana passada, estava numa parada de ônibus aqui perto de casa e uma idosa em torno dos 70 anos, muito simpática, estava indignada porque certo dia queria muito dar uma volta no shopping e, simplesmente, três motoristas de ônibus não pararam para ela entrar no veículo. Ela disse que ficou tão triste que voltou pra casa, trocou de roupa e não saiu mais. QUE TIPO DE SOCIEDADE É ESTA????? Eu pago R$ 2,20 NUMA PASSAGEM DE ÔNIBUS (que é cara para o tamanho da cidade) exatamente para que estes idosos tenham o direito de entrar sem pagar!!!! Eu tenho consciência que essas empresas de ônibus já colocam o valor das passagens pensando nisto, e os benditos motoristas fazem questão de tratar os idosos de forma desrespeitosa.

    Não sei onde vamos parar!!! Mas gostaria muito que os meus avós não sofressem o que tantos idosos sofrem por aí, nem gostaria que meus pais um dia sofressem quando envelhecerem, nem muito menos eu!!! O que fazer para mudar a mentalidade materialista e infantil do mundo atual (que ataca bebês, crianças, adolescentes, jovens e, inclusive, adultos)?

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