As novas “fobópoles” brasileiras

Henrique França
@RiqueFranca

“Fobópole” é um neologismo criado pelo escritor e geógrafo brasileiro Marcelo Lopes de Souza, a partir de duas palavras gregas – phóbos, que significa medo, e pólis, cidade. No artigo “Clima de guerra civil?”, publicado em 2005 no livro “Que País é esse?”, organizado por Edu Silvestre de Albuquerque, Souza classifica as “cidades do medo” como grandes municípios, “antes símbolo da civilização, de passeios ao ar livre” e que onde, cada vez mais, “o mais sensato parece ser ficar em casa, na segurança (cada vez mais relativa) do lar”. Ao longo de 40 páginas, Marcelo Lopes explica os fundamentos das fobópoles, suas novas fugas, perspectivas ou não de mudanças. Mas, o que chama a atenção, seis anos depois da primeira publicação, é que as cidades do medo parecem ter ampliado seu perfil inicial. Dos movimentados centros urbanos, o medo que paira sobre as grandes pólis segue ganhando território e invadido cada vez mais os pequenos municípios, distritos, contaminando com seu veneno o campo, a vida no interior.

Não fosse assim, o que dizer, por exemplo, sobre o caso de um estupro coletivo seguido do assassinato de duas mulheres em Queimadas, cidadezinha do interior da Paraíba com aproximadamente 40 mil habitantes e que agora vive sob o medo de uma suposta invasão de bandidos vindos do eixo Rio-São Paulo? Ou como explicar o excesso de arrombamentos e explosões a caixas eletrônicos nas dezenas de cidades brasileiras desprovidas de forte aparato de segurança exatamente por apresentarem, até ali, uma rotina pacata? Ou como justificar que o interior dos estados brasileiros tenha se tornado rota oficial de traficantes de armas e drogas, além de foco de prostituição infanto-juvenil – ações não raro acobertadas e integradas por homens públicos, autoridades e pessoas que detinham a confiança da população?

Os mais relativistas – ou seriam conformistas? – podem alegar que tratam-se de casos isolados. O termo, aliás, virou ‘hit’ da incompetência de gestores País afora. A criança que brinca na rua leva uma bala na cabeça em consequência de troca de tiros entre bandidos? Caso isolado. O policial fornecia armas e liberava o tráfico de drogas na comunidade? Caso isolado. E como não lembrar de um ou outro caso de pessoas queimadas nas ruas, longe das metrópoles, mas muito perto do “medo” exposto por Souza? Caso isolado, claro! O fato é que, de caso isolado a caso isolado, entramos em um estado de anestesia social impressionante. Pior: geralmente, apenas nos mobilizamos pela mudança quando o medo nos atinge diretamente – seja por um ente querido assassinado, seja pelas estatísticas de violência que rondam o nosso bairro.

Assim como as fobópoles deixaram de ser exclusividade dos grandes centros urbanos, a violência, a imprudência, o sarcasmo banditista e a falta de pudor na corrupção deixaram, há muito, de ser casos isolados. Para alguns, a coisa já se tornou regra de onde surgem máximas-chinfrins do tipo “é assim mesmo” ou “fazer o quê? Rezar para que não aconteça conosco”. Pedir proteção divina é fundamental, mas vale lembrar a máxima bíblica – essa sim, máxima – de que a fé sem obras é morta. No plano terreno – onde religiosos e ateus precisam se respeitar para sobreviver -, ainda cabe ter fé na educação, pois dela provêm nossos direcionamentos sociais. É na formação socioeducativa que está a base das cidades do amanhã. O medo tem extrapolado os limites dos grandes centros urbanos assim como a deseducação tem atravessados as paredes da sala de estar e da sala de aula. Dar com os ombros a essa questão é como classificar os absurdos de violência que nos cercam de “casos isolados”. Aos sem-ação, resta apenas o autoencarceramento e a crença comodista e vergonhosa em deuses “pagãos” – daqueles que pagam pra ver.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 17 de março de 2012]

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2 responses to this post.

  1. Posted by Carmélio Reynaldo on 18 de março de 2012 at 1:52 am

    É como se na história da humanidade ocorressem ciclos assincrônicos. Veja, Henrique: hoje estamos tendemos a morar como na idade média, em casas cercadas com muros altos e cercas elétricas (muralhas, fossos) e só abrimos a porta depois de identificar quem chega (aí baixamos a ponte levadiça).
    No interior, voltaram os cangaceiros, aterrorizando a população e a polícia.

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  2. Posted by Siméia Rêgo on 18 de março de 2012 at 2:43 am

    Ótimo texto, Henrique. Acredito que uma sociedade é construída por manifestações, tais como: falar, pensar, criar, discordar, obedecer, ajudar… E é moldada pela dialética, pelo movimento. “Casos isolados” não refletem uma sociedade. E, precisam ser execrados por representarem uma máscara para algo mais profundo e perigoso. Parabéns. DTA

    Responder

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