A Copa do desrespeito

Henrique França
@RiqueFranca

 

Que o Brasil tem um povo, regra geral, fascinado por futebol e que seus jogadores compõem, de longe, a maior concentração de craques que esse esporte jamais produziu não se pode negar. Assim como não se pode negar que trazer para o “país do samba e do futebol” um evento como a Copa do Mundo deveria ser algo extraordinário, extasiante. Deveria… mas o fato é que o desenrolar (ou o enrolar?) dos trâmites para a realização do maior compeonato dos gramados em terras brazucas tem sido marcado por faltas graves, daquelas que o cartão vermelho estaria no alto, sem chance.

Para começar, a tal ‘escolha’ pelo Brasil se deu após a desistência da Colômbia em encarar o torneio. Há quem diga “melhor para nós” e quem declare “sobrou para nós”. Na verdade, a segunda e aparentemente pessimista frase tem sido melhor estampada no bate-cabeça dos parlamentares, empresários e prestadores de serviços tupiniquins. Nosso país continental tem sido tratado pela Fifa como um adolescente inconstante e mimado, chegando ao ponto da representação da poderosa Federação declarar que o Brasil estava precisando “levar um chute no traseiro”.

Inconvenientes e (falta de) educação diplomática a parte, faz tempo que este País está precisando não levar um chute, mas no mínimo deixar de expor o seu traseiro. Ou seria exagero envergonhar-se por perdermos tempo, no Congresso Nacional, com uma lei atravancada por questões legalmente resolvidas por aqui? Afinal, qual o sentido de debater a liberação ou não de bebidas alcoólicas nos estádios, durante a Copa, se a lei brasileira já determina os limites? E a inexistência da meia-entrada nos locais de jogos? Desde quando a Fifa se considera no direito de declarar uma espécie de “Estado de Sítio” às avessas em qualquer País? Talvez a resposta esteja em “desde que os governantes desse mesmo país fecharam acordos que precisam ser honrados” – mesmo que isso arranhe a lei e a tentativa de ordem em que vivemos.

O atraso na construção dos estádios é jogada pequena diante do “olé” que o Brasil pode levar por confundir “paixão nacional” com “administração funcional”. Foi o próprio presidente Lula, à época, quem declarou, depois de receber a taça da Copa das mãos de Joseph Blatter: “o mundo terá a oportunidade de ver o que o povo brasileiro é capaz de fazer. O futebol para nós, brasileiros, não é apenas um esporte, mas uma verdadeira paixão.” Não custa perguntar: o que significa “nós brasileiros”? Seriam os políticos de olho no financiamento internacional, empresários carentes de infraestrutura para receber bem os milhares de turistas que aportarão por aqui ou as riquíssimas prestadoras de serviços básicos que sequer conseguem oferecer à sua população sistemas básicos e minimamente decentes de transporte (aéreo e terrestre), segurança e saúde?

A Copa não é dos brasileiros. É da Fifa. Para essa superpoderosa entidade, precisamos estar preparados para algumas semanas de campeonato e ponto. Para nós, “nativos apaixonados”, deveria existir algo mais. Que legado esse espetáculo do esporte nos deixará, além de boas tomadas na TV e imagens de cartões-postais? A Colômbia desistiu de entrar no jogo da Fifa, na África do Sul até mesmo um metrô iniciado ficou subutilizado e funciona parcialmente, pós-Copa. O Brasil é, sem dúvida, o País do futebol, aquele da bola no pé. Mas quando se trata de colocar a mão na massa, o pessoal que negocia os trâmites do megaevento tem colocado em campo ‘craques’ em morosidade, incertezas, desaforos e dúvidas.  E aí, pior do que encarar um jogo de pernas de pau é ver o seu País sendo negociado por um time de caras de pau.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 28 de março de 2012]

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s

%d blogueiros gostam disto: