Archive for novembro \15\UTC 2012

Canudos se foi?

ImageHenrique França
@RiqueFranca

            Acredito na música como canal de transformação, libertação e mobilização. Hoje tive o privilégio de explicar a meus filhos – 8 e 5 anos – o absurdo que foi a Guerra de Canudos. Assistíamos ao clipe de O Rappa, “Súplica Cearense”, quando a narrativa audiovisual em animação chamou a atenção das crianças. “Pai, por que o exército foi lá matar as pessoas? Eles mataram até crianças?” – e deu-se início a uma boa conversa.

Não cabe aqui detalhar historicamente Canudos, mas vale trazer à memória situações do final do Século 19 que persistem na atual era da informação tecnológica, tão moderna quanto vazia, e na qual estão inseridos nossos filhos. E episódio de Canudos, considerados por alguns como o maior massacre da história brasileira, onde apontam 20 mil mortos, é sustentado sobre o tripé Estado, Igreja e liberdade – ou libertação.

Estado e Igreja se viram ameaçados por Antônio Conselheiro e seus seguidores por perderem, cada um a seu modo, fiéis. Do poder público – destaque-se o termo “público” –, o pavor de ver prosperar, mesmo que pobre financeiramente, uma comunidade alheia a impostos, que praticava o partilhar dos alimentos e mantinha-se menos miserável do que quando inserida no esquema trabalhista escravocrata junto aos coronéis da região e das altas taxas governamental e nenhuma assistência social.

Da Igreja, o medo assustador de perder fiéis domingueiros diante de um homem que se vestia “como uma múmia” – segundo Euclides da Cunha, em Os Sertões -, se declarava enviado de Deus e proclamava a libertação dos dogmas eclesiásticos vigentes e a opressão social. Conselheiro não abandonara os ritos de terços e pregações, mas foi além do falar e decidiu fazer. Assim, fiéis trocavam a simples reza ritualística dos templos pelas mobilizações em forma oração promovidas em Canudos.

Estado, Igreja, Exército e mesmo intelectuais, jornalistas e sociedade “padrão” da época foram coniventes com o massacre de Canudos por um único e vergonhoso motivo: libertação. Aquelas 20 mil pessoas sentiram, por alguns meses, o gosto de fazer uma sociedade menos opressora, menos cínica e mais pública do que jamais se havia conhecido até ali. A libertação é sempre perigosa – especialmente quando ela vai de encontro à ignorância travestida em “ordem”.

Canudos se foi? Estado e Igreja continuam de pé. Em geral, o primeiro não garante melhores condições de vida e a segunda não representa a essência de Deus, apesar de estarem cientes de que ambos deveriam promover o bem-estar, o desenvolvimento ordenado, o cuidado, a paz. E a liberdade? Ela continua ali, em estado potencial, sempre prestes a romper correntes, promover mudança e colocar-se à prova – mesmo que, ao extremo, isso represente a morte. Afinal, de que vale viver e não ser livre para ter tempo com os filhos, para amar e ouvir canções, para plantar sementes na terra onde nasceu? Repressão, escravidão, desrespeito e morte estão logo ali. Não à toa Antônio Conselheiro chegou a batizar o local, que ficava em um vale, de “Belo Monte”. Canudos não se foi.

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