Pente-Fino da vergonha

Henrique França
@RiqueFranca

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Equipamentos apreendidos durante Operação Pente-Fino na Paraíba (Foto: Divulgação/Seap)

Espetos, facas, celulares, carregadores, fones de ouvido, tesouras, cachimbos, aparelhos de televisão, DVD, videogames, pen drives, caixa de som, monitor de computador, dinheiro. Pode até parecer o checklist para um churrasco de fim de semana, entre amigos, mas esse é o resultado de operações “pente-fino” realizadas em três penitenciárias da Paraíba – todas no interior do Estado. Aliás, nem casa faltava até dia desses, quando uma mansão foi “descoberta” dentro de um presídio em Campina Grande, na Paraíba, local que nem foi vistoriado nessa farra da última semana.

Quatro dias depois dessa “feira” flagrada no interior, na capital João Pessoa um novo resultado de operação “pente-fino” é apresentado à imprensa e sociedade: fotos das facas e celulares, depoimentos das autoridades penitenciárias, discurso de moralização. Um dos responsáveis por “pentear” os presídios no Estado – tarefa certamente ingrata, de Sísifo! – declara que o objetivo da ação é mudar a mentalidade “dentro e fora” dos presídios paraibanos. Afinal, celular não nasce da lavoura e nem aparelhos de TV caem do céu como chuva. Conclusão óbvia e por isso patética: todo esse material entra mesmo é pela porta da frente das cadeias. Uma prática imoral, ilegal e que amplifica a sensação de impotência da sociedade – inclusive daqueles policiais realmente comprometidos com a segurança de sua gente – e de escárnio da parte de bandidos, inclusive daqueles que permitem a entrada desse material.

Assim caminha o sistema carcerário brasileiro: policiais que poderiam estar nas ruas são destacados para realizar operações pente-fino, sabendo exatamente o que vão encontrar. Acontece que “pentear” presídios a cada semana, mês, ou seja lá em quanto tempo, não deveria ser natural. Não se trata de limpar o jardim porque o mato cresceu. Se há ervas daninhas no sistema prisional, que permitem o tráfego de materiais proibidos por lei nos presídios, que elas sejam arrancadas dali. Mas só é possível fazer isso quando a lógica do pente-fino vigorar entre os donos do salão. Alguém que libera a entrada de um televisor no presídio pode ser muito bem flagrado por uma câmera de segurança – daquelas mesmas que as autoridades nos vigiam, a nós cidadãos, todo instante.

Enquanto houver permissividade a respeito dessa “zona franca” que é o entra e sai de mercadorias nos presídios brasileiros; enquanto policiais forem destacados para desfazer o crime cometido cínica e repetidamente por pessoas com prerrogativa de liberar esse “mercado chinês” de porta de cadeia; enquanto a Segurança Pública apontar o tal “pente-fino” como um sinal de eficiência e não de vergonha para todos, os cidadãos que pagam impostos, que sonham com uma cidade menos violenta, com leis cumpridas e transparência nas ações coletivas permanecerão autoencarcerados nos limites dos próprios muros, onde parece haver muito mais controle e seriedade.

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