A noite em que nós encaramos o guarda

MAG

Fachada do MAG Shopping, em João Pessoa

Henrique França
@RiqueFranca

Sim, esse título é uma ironia e faz alusão direta ao curta-metragem de Jorge Furtado “O dia em que Dorival encarou o guarda”. Pois foi assim que eu e minha esposa nos sentimos quando tentamos sair do Mag Shopping, na noite desta quarta-feira (8/5): obrigados a encarar e sermos encarado pelo guarda.

Festival de cinema francês, última sessão com término por volta das 23h. Descemos as escadas do segundo andar ao terreno naquele clima de “bota-fora” que todo shopping tem quando encerra o horário de expediente “normal” (mesmo que algumas atividades, como lanchonetes e cinemas estejam em pleno funcionamento): cadeiras suspensas, pessoal da limpeza a todo vapor, chão molhado, portas fechadas, seguranças.

Chegamos ao térreo. Olhamos para a porta da frente, por onde um casal acabara de entrar (a dupla estava na pizzaria que fica “fora”, mas integrada ao Shopping) e seguimos até ela para sair pelo mesmo lugar. Para nossa surpresa, o segurança que vigiava a porta nos mandou voltar e disse que a saída só se daria pela parte de trás do shopping.

– Nosso carro está aí na frente -, argumentamos. O carro estava a menos de cem metros da “porta proibida”.

– Mas não pode sair. Só o pessoal da pizzaria pode entrar.

– Mas é a mesma porta. Você acabou de abri-la. Por que não podemos passar?

– Porque são ordens. Não posso deixar sair -, explicou (?) o guarda-segurança. (e aqui o roteiro de “O dia em que Dorival encarou o guarda” começava a se delinear)

Neste momento, um outro casal sai da pizzaria para entrar pela “porta proibida”. A moça é uma colega jornalista e nos cumprimentamos – ela do lado de fora da porta, esperando entrar, eu do lado de dentro, querendo sair.

Do lado de lá, o guardo explicou ao casal que eles poderiam passar, mas eu e minha esposa, não. A cara colega, de lá, disse algo como “mas o que custa?” e o guarda-segurança repetiu “são ordens…”. No meio do impasse, o seguidor de ordens resolveu chamar pelo rádio aquele que dava as ordens. Enquanto isso, seguiu com o casal que tinha livre acesso para entrar no shopping até uma outra porta, na extremidade oposta a que eu e minha esposa estávamos, e a abriu para que a dupla pudesse passar.

Para minha surpresa e vergonha, o casal (ela minha colega de profissão, havia acabado de me cumprimentar), passou ao largo, sem olhar de lado, tipo “melhor não nos misturamos com essa gentinha”. E seguiu seu caminho de passe-livre de entrada no Mag. (Em tempo: espero nunca deixar de comprar uma questão dessas por um amigo/colega/enfim. Mas, cada um, cada um…)

Finalmente, o chefe da segurança (creio que sim, porque o crachá estava dentro do bolso e o rapaz não disse seu nome) chegou. Explicamos a situação, o absurdo, a falta de respeito para com clientes do shopping, a total falta de bom senso do subordinado e a nossa condição de “não sermos bandidos” diante do que estávamos passando.

“Bem, agora vou ter que deixar vocês passarem. Mas não é permitido” foram as palavras do chefe/supervisor da segurança do Mag Shopping. Não se desculpou, e colocou-se como alguém que estava fazendo um favor em nos deixar passar. Saímos de um dos locais mais agradáveis desta cidade com a sensação de desrespeito extremo, um mal-estar inoportuno.

Saímos, enfim, mas a situação abriu as portas de alguns questionamentos acerca desse ocorrido:

  1. Se o Mag Shopping não pode manter seu padrão de ambiente agradável depois das 22h, porque permite atividades no local após esse horário?
  2. Se tivéssemos retornado até porta de trás para dar a volta no quarteirão, o Mag Shopping garantiria nossa segurança em seu entorno? (vale lembrar que já tivemos clientes baleados e assaltados na calçada de um dos shoppings da Capital.
  3. Pode parecer alarmismo, mas vale ou não vale lembrar que foram ordens desse tipo (inquestionáveis, apesar de absurdas e sem qualquer bom senso) que amplificaram a tragédia da Boate Kiss, em Santa Maria? “Não pode sair sem mostrar a comanda”, lembram?
  4. Depois das 22h, quem responde por um lugar como esses – além de um chefe/supervisor de segurança que sequer se identifica para seus clientes?
  5. Se o slogan do Mag Shopping é “Único em sua vida”, podemos ficar tranqüilos de que essa foi a única vez que passamos por um constrangimento/desrespeito desses, na vida?
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5 responses to this post.

  1. Posted by Van on 9 de maio de 2013 at 5:52 am

    Absurdamente lamentável o fato! Oxalá, fosse algo extemporâneo, mas me parece, para minha infelicidade, uma regra. E ainda bem mais geral do que podemos admitir quando pensamos num ideal de sociedade civilizada. Obviamente, o único valor em tela é o patrimonial, DO PRÓPRIO ESTABELECIMENTO, as vidas e o bem estar de todos que fazem a própria razão de ser do Shopping, nada interessa. É isso, que querem de nós, que sejamos máquina e objeto desse projeto de desumanização? Não, recuso-me! Considerava o Mag Shopping, além de um lugar agradável, uma alternativa à massificação a às atitudes mais desumanizantes tipicas dos shoppings centers e dos consumidores que os fazem tão perfeitas engrenagens de “dessociabilidades”. Mais triste, sou obrigado a rever minha posição.

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  2. Posted by Ana Queila on 9 de maio de 2013 at 12:54 pm

    Que me perdoem meus amigos pessoenses/paraibanos… Mas situações como essas, fazem com que a Paraíba seja tão desclassificada por aí a fora. É verdade que algo assim acontece em qualquer lugar do mundo. Mas aqui é bárbaro… A IGNORÂNCIA, em todos os aspectos sujam grotescamente a imagem da cidade/estado.
    Passei a amar João Pessoa. Sou baiana mas me criei aqui, e sei o que sofri com preconceitos, até me adaptar… :/
    Atualmente as pessoas são um pouco mais “discretas”…
    Isso aê, mano. A Comunicação é o melhor meio de denúncias e mudanças. E vc sabe utilizá-la bem demais. Abraços!

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  3. Posted by Sílvia on 9 de maio de 2013 at 1:23 pm

    não sei porque duas pessoas achavam o mag um oásis em meio a brutalidade corrente nos shoppings da cidade. os funcionários são tão grosseiros como é o padrão da cidade e quando está perto da hora de fechar as lojas começam a expulsar sem dó…

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  4. Posted by jose roberto on 9 de maio de 2013 at 4:43 pm

    É uma pena que isso aconteça, e pior ainda é o fato da maioria da população pensar semelhante à sua colega. “Isso não tem nada a ver comigo”, e assim ficam deixando que isso volte a acontecer…

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  5. Turma, sobre “A noite em que nõs encaramos o guarda”, tenho algumas notícias. Primeiro, o posto foi lido por centenas de pessoas e compartilhado por dezenas – o que é bom não para “detonar” um lugar ou alguém, mas para ampliar informações sobre ações desrespeitosas como essa – nesse ou em outro lugares, que podem acontecer com qualquer um de nós. Em segundo lugar, recebi do Mag, em seu perfil no Twitter, as seguintes mensagens: “Olá, Henrique! Estamos averiguando com nossa equipe o que realmente aconteceu para poder tomar as devidas providências. [cont]” – atenção no REALMENTE… depois, essa: “Se você quiser tirar alguma dúvida conosco, pode falar com nosso Departamento de Marketing pelo telefone 3048 1000. Abçs!” – Dúvida! Quero apenas tirar essa sensação de desrespeito e mal-estar que carrego comigo até agora. Ainda aguardo uma resposta/providência, de fato. Muito obrigado pelos comentários e observações.

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