Ciclofaixa de lazer em João Pessoa: um grito dominical contra o desmonte diário da cidade

Henrique França
@RiqueFranca

Piquenique possível depois da abertura  da ciclofaixa de lazer em João Pessoa.

Piquenique possível depois da abertura da ciclofaixa de lazer em João Pessoa. (Foto: Paulo César Lopes)

João Pessoa, do alto de seus 428 anos, ganhou há pouco mais de duas semanas sua primeira ciclofaixa de lazer. É algo, sem dúvida, a ser comemorado. Afinal, há um punhado de anos não se vê nesta que foi chamada um dia de “segunda cidade mais verde do mundo” ou “capital da tranquilidade” uma iniciativa pública que proporcionasse, de fato, o reencontro do cidadão pessoense com seu espaço urbano de forma tão simples, direta, saudável e não agressiva. Muito menos verde e muitíssimo menos tranquila, a capital paraibana tem assistido nos últimos anos ao desmoronamento de suas características provincianas (não confundir com atraso urbano) confundindo progresso com edifícios, modernidade com engarrafamentos e lazer com shoppings centers cada vez mais monótonos.

Porém, eis que surge uma ciclofaixa ligando a Praia ao Centro da cidade, a classe média-alta ao morador de rua das vielas do centrão, o pedreiro que pedala a Barra Forte e o empresário em sua Cannondale, o vendedor de picolé e a socialite, o skatista e a família que se reúne na grama ao redor da Lagoa pra observar o cartão-postal por um ângulo jamais visto, sem a grita dos automóveis, sem os carros de som das lojas, mesmo que essa bela Lagoa esteja poluída, sofra de um descaso ainda velado. A ciclofaixa de lazer instalada pela Prefeitura de João Pessoa é uma artéria que bombeia sangue novo na cidade – longe do “sangue azul” que circula pela ciclovia da orla, onde o desfilar sobre pedais dá o tom do passeio. A pulsação desse espaço é multicor, democrática, e por isso tem mais a cara da cidade.

Há muito a mobilidade urbana em João Pessoa tem se mostrado caótica e desajustada, desconectada com as tendências mundiais de países onde já se errou muito no conceito “cidade para carros” e que agora apresentam um movimento reverso, abrindo espaços para o transporte coletivo, não motorizado, para o pedestre prioritariamente. Cidades para pessoas é a tônica. Londres, Nova Iorque, Portland, Bogotá, Amsterdã, entre tantas outras, estão aí para apontar os caminhos que a capital paraibana como cidade pequena, ordeira, tranquila e verde que deveria ser, poderia seguir. Afinal, por que seguir um caminho historicamente fadado ao erro? Por isso, mesmo que minimamente representativa nesse contexto de mobilidade urbana, a ciclofaixa de lazer é um acerto, um ponto que precisa ser ressaltado e valorizado.

Porque mobilidade urbana não é a capacidade de seu carro trafegar em uma avenida fluida, com asfalto novo e com poucos semáforos. Muito menos a possibilidade de satisfazer a sanha de provar os milésimos de segundos que levam seu “carrão” de zero a cem – para isso, procure uma pista de corridas. Na Lei, no Código, na lógica, a prioridade não está na máquina motorizada, mas na máquina gente, carne e osso. Uma cidade que tem mais metros quadrados de asfalto do que de calçadas padece dessa compreensão não respeita seus cidadãos como deveria. Uma cidade que se deixa desconfigurar em prol do progresso predial desordenado não tem visão de futuro, largou o tema “qualidade de vida” na mesma gaveta de onde tirou a “qualidade dos investidores”.

A ciclofaixa é um grito em meio a esse processo de desmonte urbano. Um grito muitíssimo tímido, também. Dominical. Afinal, sua instalação se dá somente no período das 7h às 16h, tirando a possibilidade de aproveitar o final da tarde em família, entre amigos, sobre duas rodas. Por que não tornar definitiva a ciclofaixa na cidade – que não mais seria apenas “de lazer”, mas se instalaria como um espaço democrático de ocupação do espaço urbano entre coletivos, veículos automotores particulares e ciclistas? Absurdo! – alguns dirão. Uma simples balança ou um olhar democrático comprovariam que não. Primeiro, o olhar democrático: imagine se seu carro só pudesse trafegar na avenida em horários pré-determinados. E se as avenidas fossem fechadas para carros particulares, dando exclusividade aos ônibus e bicicletas? (únicos veículos, aliás, foco de apoio financeiro pelo Governo Federal, através do PAC da Mobilidade).

Sobre a balança, uma equação simples se impõe: 22% da população de João Pessoa usa carros particulares, veículos próprios, enquanto 78% utiliza ônibus, bicicletas ou anda a pé. Se democratizar implica em equilibrar, por que a prioridade de investimentos, de espaços, de regalias, de uso do solo comum é para os carros, em número muitíssimo menor nesse cenário? A ciclofaixa de lazer precisa ser mantida, expandida, respeitada e valorizada. É o mínimo de equilíbrio que se pode oferecer à ex-capital da tranquilidade.

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6 responses to this post.

  1. Posted by Emerson da Cunha on 13 de outubro de 2013 at 12:21 am

    posta mais fotos!

    Responder

  2. Posted by Roberta on 14 de outubro de 2013 at 2:00 am

    Gostei da iniciativa, parabéns aos idealizadores. Mas acho que tem que fazer ligações das ciclovias entre os bairros, agora. Porque é difícil sair de casa e pedalar pelos Bancários, Castelo Branco ou Av. Pedro II até chegar a essa novíssima ciclovia centro-praia, ou seja, se não houver expansão dessa ciclofaixa, a coisa será pouco eficiente. Digo isso, porque sou ciclista e também motorista, e é difícil quando estou nas duas situações: pedalar por ruas e avenidas dividindo o mesmo espaço com motoristas, muitas vezes em vias de mão dupla é bem complicado, tanto com a insegurança que sinto quando me coloco como ciclista, quanto quando estou dirigindo e preciso manter a distancia mínima pra mim e para o ciclista. Além disso, é preciso mais bicicletários espalhados pela cidade. Muitas vezes não vou ao supermercado ou praça ou praia de bike, porque simplesmente não tenho onde deixar/estacionar a bike em segurança.

    Não quero só reclamar, mas temos que ter ciência de que há muito que avançar na mobilidade urbana de JP, a começar pelo serviço de transporte público, que é atrasado, não tem todo horário, é bastante desconfortável e sujo, e carrega as massas como se fossem sardinhas em lata, principalmente nos horários de pico em que as pessoas vão/vem cansados do trabalho/estudo, etc. E isso acontece justamente pra reduzir os custos da empresas de transporte públicos que não ampliam as frotas, nem melhoram as condições do transporte de passageiros. Só pensam numa margem de lucro maior, mas oferecem um péssimo serviço. Minha nossa! quando que esses empresários vão acordar? Bem, com lucro garantido, talvez nunca! Afinal, pra quê oferecer melhor serviço a esses “miseráveis” que só trabalham e pagam impostos, se temos margem de lucro garantido sem investir em transportes mais avançados e eficientes?

    Olha, já usei muito o bus e confesso que era um tormento, pela demora, sujeira, além de não passar depois da meia noite… Quando andava nos horários de pico, me sentia como se estivesse sendo carregada pra ir à forca, porque volta morta de cansada ainda mais pela espera do ônibus que quando chegava estava LOTADO e tinha que ficar espremida e em pé até chegar em casa. Era algo bem desconfortável e até desumano.

    Enfim… desculpem o desabafo, mas já que o assunto é mobilidade urbana….

    Espero que realmente imitemos a Europa nos seus bons exemplos e melhoremos não apenas os meios de transporte de curta distancia (bicicleta), mas os de longa distancia e que carregam as massas (ônibus).

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  3. Posted by Roncalli Dantas on 15 de outubro de 2013 at 6:02 pm

    Parabens pelo texto

    Responder

  4. Posted by Jorge Baumgartner on 16 de outubro de 2013 at 11:38 am

    Quantos chavões e lugares-comuns você consegue usar por parágrafo? Esse é o seu máximo ou você consegue fazer melhor ainda?

    Responder

    • Olá, Jorge. Creio que ainda tenho um punhado de chavões guardados na manga. Então, sim, é possível fazer “melhor”. Por falar nisso, fica aqui o convite para que você envie um texto “limpo” e sem lugares-comuns – o melhor que você puder fazer, evidentemente. O espaço está garantido. Grande abraço.

      Responder

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