Archive for the ‘ReligiosaMente’ Category

No ringue da fé

Henrique França
@RiqueFranca

Uma imagem corre a Internet expondo quatro personalidades brasileiras, líderes religiosos, que vêm sendo expostos na mídia mais por investigações fiscais ou policiais do que pelas palavras de conforto espiritual e amor cristão que deveriam proferir. Na montagem compartilhada nas redes sociais, Silas Malafaia, Edir Macedo, Valdemiro Santiago (o apóstolo) e RR Soares são apresentados como lutadores de vale-tudo, prontos para a denominada “Batalha Televangelista”. Escárnio para uns, vergonha para outros, o Brasil tem sido foco de corporações travestidas de religiosidade. Tem sido golpeado, como classificou o próprio Cristo, por falsos profetas.

Nos últimos dias, um levantamento jornalístico expôs, em rede nacional, evidências de enriquecimento exorbitante atrelado a inadimplência da Igreja Mundial do Poder de Deus e seu mentor, chamado apóstolo Valdemiro Santiago. Diante da aquisição de 26 mil hectares e investimento de aproximadamente R$ 50 milhões em dinheiro vivo, o contraponto de imóveis alugados pela denominação e não pagos, inadimplência pequena diante de tamanho patrimônio “apostólico”.

O mais interessante, para não dizer irônico, é que a reportagem, apesar de coerente e importante como denúncia, foi idealizada e produzida na emissora do ex-parceiro de sacerdócio e agora arqui-religioso-inimigo Edir Macedo, que já teve sua vida devassada por reportagens no Brasil e além fronteiras e foi inclusive preso sob acusações de charlatanismo, curandeirismo e envolvimento com o tráfico de droga.

Além dessas estrelas da telerreligiosidade, há outros líderes menos “famosos” e não menos vergonhosos para quem acredita, respeita e faz da busca pelo religare um objetivo do bem, para o bem. Exemplo disso é Aldo Bertoni, tido como profeta que realiza cultos em locais vigiados, possui armas registradas em seu nome e é acusado de abusar sexualmente de mulheres fiéis da seita criada pelo autodenominado “divino”.

Não coincidentemente, a malandragem baseada na cristandade tem ganhado adeptos em todos os segmentos, inclusive – como não poderia deixar de ser – no universo politiqueiro do Brasil. Não seria exagero dizer que se Cristo ainda andasse por essas paragens trataria o Congresso Nacional e os estúdios de TV como tratou os mercadores que buscavam lucro dentro do templo. Quem conhece a essência da palavra dEle tem a certeza de que o País não precisa de um “show da fé” ou de uma “bancada evangélica”, mas sim de cristãos verdadeiros, vivendo como cristãos genuínos na escola, na repartição, nas estradas, nas empresas de comunicação e nos parlamentos.

Cristo nunca ostentou sequer seus milagres, quiçá buscou riquezas materiais, posses ou mesmo uma vestimenta melhor, a melhor. O melhor dEle tem sido o pior apresentado diante das câmeras de TV. A fé é algo que não cabe em livros, CDs, DVDs, grandes filmagens ou projetos de lei. Os mandamentos de Jesus, para ficarmos no âmbito dos cristãos, não se deixam informar em homens de paletó e fala mansa, pausada, de retórica pasteurizada. A verdadeira igreja deveria usar templos apenas para a comunhão e não para a usurpação, a ostentação e a exploração de quem pretende ser fiel a Ele e nunca a pseudo-apóstolos e mediadores do céu. As “celebridades do divino” continuarão se enfrentando por índices de audiências, lutando por mais milagres e brigando por mais enriquecimento – tentando arrancar sangue de quem já deixou a cruz há muito tempo.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 21 de março de 2012]

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Dos Bórgias aos Faustos

Henrique França
@RiqueFranca

 
Não é de hoje que a ligação entre alguns sacerdotes e o “mundanismo” tem-se revelado tão estreita quanto a porta de entrada no paraíso bíblico. Desde os tempos do próprio Cristo os doutores da lei e da religiosidade já provocavam o desprezo do Filho de Deus. De postura inabalável, vestes exemplares e palavras cultas, essa gente sempre esteve à frente dos direcionamentos moralistas e por trás de tramóias, conchavos e toda sorte de sujeira social de sua época. Hoje não é diferente. Muda-se o cenário, permanece o farisaísmo.

A notícia de que um ex-deputado e ex-pastor da Paraíba estaria envolvido na compra de um bebê de apenas 30 dias de vida é mais um número no somatório de casos vergonhosos envolvendo “homens de deus” e crimes diabólicos. O mais vergonhoso, para quem professa essa fé e acredita na instituição ecclesia com uma missão, é ter que aturar supostos líderes envolvidos em um lamaçal digno do chiqueiro onde o filho pródigo fazia suas refeições ao desertar o pai.

Pior: ao binômio sacerdócio-manipulação, nesses casos, soma-se a potencializadora política. Pastores-político, padres-políticos e sacerdotes-políticos, no geral, enveredam por um caminho largo para as benesses que a vida parlamentar contém, incluindo o brilho do poder que ofusca a humildade inerente a todo pastorado genuíno. Se todos os “chamados” lembrassem das palavras do Filho de Deus, não ousariam chafurdar no lodo do poder. Está na Bíblia que ‘o bom pastor dá a própria vida pelas ovelhas’ – e não “dá a vida das ovelhas”, como sugere a investigação policial do caso desta semana.

Interessante notar que não há um pastor ou um líder cristão nas escrituras – de Davi a Paulo – que defenda a ostentação, o poder por conta própria e a afeição política. O primeiro tornou-se rei e caiu vergonhosamente a partir do trono; o segundo era um homem da lei, cobrador de impostos e tornou-se um andarilho distante da política fiscal da época. Mas os novíssimos sacerdotes parecem não entender uma mensagem tão simples.

Vale rememorar a saga dos Bórgias, família espanhola-italiana do período Renascentista que levou um de seus membros – Rodrigo Bórgia – a torna-se o pontífice Alexandre VI, estrategista de uma diversidade de crimes de dar inveja aos mais pecadores dos criminosos: homicídio, incesto, corrupção, estupro, roubo, adultério. Nada fugia ao Papa borgiano. E, claro, a ascensão de Rodrigo Bórgia ao papado levou a família a participar de disputas políticas.

“Os Bórgias” tornou-se livro, assim como outro personagem – real e literário – sustentado pelo tripé sacerdócio-criminalidade-política: Johann Georg Faust, o Fausto. Bacharel em Teologia pela Universidade de Heidelberg, Faust passou a realizar magias e usar seus “poderes” para ganhar algum dinheiro e prestígio. Apesar do conhecimento cristão, foi banido pela Igreja e morreu de forma estranha, classificada como “obra do diabo” – esse, sim, o diabo, personagem sempre presente nessas imbricações político-religiosas. É sempre assim: muda-se o cenário, permanece o farisaísmo.

[Texto publicado no Jornal A União, edição de 5 de novembro de 2011]

Missionários da desesperança

Henrique França
@RiqueFranca

No interior da Paraíba, um trio de malandros bem vestidos se passa por religiosos e, sob a promessa de distribuição de bênçãos, foge com R$ 1.500 de uma família esperançosa pela cura de um filho. Mil e quinhentos reais para extirpar uma doença. Boletim registrado na polícia aponta que um dos “missionários” alegou ser irmão do padre Marcelo Rossi.

Longe daqui, no bairro de Tatuapé, em São Paulo, um homem de 85 anos é acusado de abusar sexualmente de várias mulheres, que seriam fiéis de uma seita criada por ele, para sua própria veneração. Aldo Bertoni, o nome de “adorado”, é tratado como um profeta, uma divindade, mas parece bem humano: tem um local de cultos vigiado 24 horas e possui armas registradas em seu nome.

Não é de hoje que a massificação religiosa no Brasil e no mundo está atrelada à ignorância popular. Porém, se antes os “preparados” pelo sistema eclesiástico manobravam o rebanho ao bel prazer, hoje literalmente qualquer malandro consegue a mesma façanha, com o agravante de agredir, abusar e deixar nessas pessoas traumas irreparáveis.

A espiritualidade é algo inegavelmente inerente ao ser humano. Negar essa instância é como sorver apenas o lado físico e intelectual de um ser muito mais complexo e além da vã filosofia que nos move. Somos corpo, alma e espírito – muito mais aquele do que esses, há um bom tempo, conseqüência dessa mania de racionalizar tudo, como se a resposta fosse mais satisfatória que a pergunta.

Porém, confundir espiritualidade com pilantragem é algo tão comum que até mesmo quem professa de forma sincera um credo, uma direção dogmática, uma busca que transcende o solo que pisamos ou se sente envergonhado ou, no mínimo, incomodado. Os templos, sejam eles pertencentes a qualquer ‘bandeira’ religiosa, são vistos como balcões de serviços espirituais. Daí alguém acreditar que a cura de um filho possa custar R$ 1.500 ou a pretensa cura de um câncer sequer diagnosticado cientificamente exija submissão sexual a uma mulher – caso das investigações sobre Aldo Bertoni.

A igreja, não confundida com templo ou grupo social separado, constitui-se uma dos direcionamentos ligados à espiritualidade mais singulares. Usurpada em seu sentido primário, especialmente no cristianismo, igreja está ligada a reunião de pessoas ligadas entre si, respeitosas umas às outras, ouvintes umas das outras, família, corpo, unidade. Não à toa uma igreja começa em casa, entre pais e filhos, e só depois deveria ampliar esse grupo junto a outras pessoas, outros núcleos.

E mais: diferente do que se faz, atualmente e há muito tempo, igreja, da palavra grega ekklesia, traz dois radicais: ek, que significa ‘para fora’, e klesia, que significa ‘chamados’. Ou seja, a igreja deve ser voltada extramuros, para além-fronteiras, para onde outros precisem dessa família, desse auxílio, dessa unidade. É um ideal a ser perseguido, não um partido a ser temido ou um sistema inquisidor.

Enfim, religião não é moldura, tipo de roupa, obrigação ou punição. Religião é o religar com o divino. O conjunto de regras, os dogmas, as obrigações inseridas nesse contexto não são religião em seu sentido primeiro, mas doutrina. Coisa criada por homens, cheios de si, falhos, narcisistas e orgulhosos – muito até inescrupulosos, como o suposto irmão de Padre Marcelo Rossi e o suposto tarado de 85 anos que se protege como um banqueiro… ou um bandido.

Há, nesse contexto, muita gente correta e muito mais pessoas equivocadas, intencionalmente ou não, como em todo e qualquer grupo onde haja pessoas. Como saber? O problema é quando esse religare se volta para quem está diante, palestrando, pregando, empregando pessoas, impregnando maldades. Religião é religar com o divino. E nem Marcelo Rossi, nem Aldo Bertoni, nem quaisquer outros líderes dessa espiritualidade tênue e intocável, famosos ou não, são divinos. Também eles precisam dessa religação – e não raro até mais do que seu rebanhos.