
Uma semana depois, o vídeo em que um garoto de expõe fisicamente é retirado do ar. Muito tempo dado aos aproveitadores.
Henrique França
@RiqueFranca
Tudo começa como uma brincadeira entre duas adolescentes contaminadas, como milhares de outras meninas modernas, pelo universo do narcisismo e da superexposição na Internet. Sentadas diante de uma webcam, a dupla faz caras e bocas para dublar a pseudocanção “É nós que traça” (que liquidifica a combinação ‘batida para rebolar’ e ‘letra para achincalhar a mulher’). Em dado momento do “show” das meninas exibicionistas, um garoto de aproximadamente sete anos entra em cena e a sequência de imagens se torna constrangedora: o menino baixa a roupa e mostra o ânus, manipula o pênis e simula uma masturbação ali mesmo, no ritmo da “música”.
Nessa sequência de pouco mais de um minuto de duração há duas questões que precisam ser consideradas por muito tempo. Primeiro, a falsa sensação de segurança que leva crianças e adolescentes trancados em seus quartos, diante do monitor do computador, a abusar de uma linguagem vulgar, a postar imagens erotizadas, a dar dicas de como serem encontrados (endereço, trajetos casa-escola) e a experimentar um universo adulto demais para a imaturidade infantil e, o mais grave, sem qualquer acompanhamento de pais ou responsáveis.
A segunda questão recai exatamente sobre os adultos, que deveriam orientar suas crianças e adolescentes ou, minimamente, acompanhar seus rastros de jovens internautas – o que evitaria desfechos infelizes como sequestros, violência, abuso sexual e, não raro, assassinatos. O que acontece, porém, é que muitas famílias têm pulverizado a responsabilidade de educar e orientar seus filhos entre a escola, a TV (antigas “educadoras”) e a Internet. Fato é que filho em casa, protegido das ruas e diante da Rede Mundial de Computadores está tão ou mais exposto do que o moleque que brinca na praça da esquina. Muito provavelmente ali, na praça, um garoto de sete anos que expusesse o ânus e simulasse masturbar-se seria repreendido – isso se ele sentisse a liberdade de fazê-lo em local público. Liberdade essa, totalmente falsa e perversa, nas teias da web. O olhar conectado da câmera abre os portais para um espaço bem mais público do que o olho da rua em frente a casa.
Se a total falta de bom senso permitisse a descrição textual detalhada desse vídeo, aqui, esta crônica correria sério risco de ser criticada pela baixeza ou pela vulgaridade no linguajar. Apesar disso, muito mais explícitas que quaisquer palavras usadas agora, as imagens do garoto instigado pelas adolescentes à superexposição – e o prazer de uma delas em verificar a “ordem” sendo cumprida – permaneceram na Rede por mais de uma semana, até que o site em que o conteúdo foi postado retirou o vídeo do ar, alegando desrespeito à política de uso. Uma semana é tempo suficiente para baixar e compartilhar o vídeo sem qualquer empecilho, e esse compartilhamento faz parte do modo de ação das redes de pedofilia mundo afora.
Há muita gente dando dicas sobre como evitar a exposição de crianças na Internet, mas o número de imagens de meninos e meninas em situação dúbia, e de jovens narcisos em busca de aceitação ou notoriedade na web, tem se mantido crescente – assim como os casos de abusos contra esses pequenos. E, nesse contexto nada virtual, a suposta diversão das nossas crianças e adolescentes contribui para alimentar a perversão de adultos doentes.
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